Olha o que você me fez fazer

Quem minimamente acompanha o mundo da música pop já sabe da nova (agora não tão nova assim) música da Taylor Swift. Em poucos dias de lançamento, eu já pude ver diferentes reações das pessoas de dentro do meu círculo social: algumas elogiaram e/ou adoraram a música, enquanto outras se posicionaram contra a música, demonstrando um sincero incômodo e – em alguns casos – até nojo.

Como muitas outras músicas , comecei não gostando nem um pouco de “Look What You Made Me Do”. Achei repetitiva e nada memorável, com um refrão muito chato, mesmo só tendo escutado uma vez. Dias depois, o clipe foi lançado, e essa música passou a ser a mais executada no meu perfil do Last.fm. Uma das cenas do videoclipe virou capa do meu Facebook. Eu praticamente fiquei viciado e me esforcei em aprender a letra e saber tudo sobre essa nova fase da artista. Tá, mas por que um vídeo mudou tanto a situação?

É importante dizer que eu escreveria sobre isso antes, mas por algum motivo estou publicando esse texto só hoje. De certa forma, isso é ótimo, porque o hype passou e poderei agora emitir uma opinião com mais segurança e sinceridade.

Taylor Swift é uma pessoa que, sem dúvidas, divide opiniões, não é mesmo? Há quem não suporte a existência dela, e há quem a defenda com unhas e dentes. Eu, por exemplo, já fui de botar mais a minha mão no fogo por artistas, mas hoje tenho diminuído a frequência disso, principalmente porque tenho tido muita preguiça para tal. Sem contar o fato de que não estou ganhando nada para isso, e que essas pessoas – em um determinado momento – podem falar uma merda tão grande que vou considerar aquilo indefensável. Sigo então esse texto sem muitos amores (mas também sem muito ódio), me distanciando ao máximo das polêmicas. O fato é que ela teve problemas com muitas pessoas ao longo de sua carreira.

Vocês podem estar do lado dela ou não, mas precisam reconhecer que a reputação dela não é a das melhores. E um dos motivos de ter desenvolvido tanta afeição à essa nova era da Taylor foi a maneira como ela trabalhou esse elemento, que será o título do seu álbum ainda não lançado: “Reputation”. Em outras palavras, a forma como essa autocrítica (envolvendo sua imagem pública), se desenvolve ao longo do clipe, sendo trabalhada em mínimos detalhes e com um senso artístico que considerei impecável, já foi o suficiente para eu vê-lo mais de cinco vezes por dia.

Uma das coisas presentes no clipe que eu mais gostei foram os detalhes referentes a todos os principais conflitos que Taylor já teve. Ela pensou em tudo, colocando desde o seu pseudônimo numa lápide até ela mesma em uma banheira de diamantes. Todo o perfeccionismo e os conceitos inseridos no vídeo – como as cobras, os fotógrafos e todas as eras anteriores da artista – fazem com que “Look What You Made Me Do” já ganhe o meu prestígio.

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No trono, está presente a frase “et tu brute”, o epíteto da traição

Além disso, a obra também criou em mim um elo de empatia muito forte. Esse elo se desenvolveu por um simples motivo: identificação pessoal. A minha reputação também não é nem um pouco boa, e eu já fui chamado de muitas coisas. Falso, manipulador, não confiável, infiel, superficial, dramático, irritante, irresponsável, exagerado e infantil foram alguns dos adjetivos que me engatilharam muitas crises ao longo da minha vida. Até o momento em que tive que escrever num bloco de notas (!) a seguinte frase: “se alguma pessoa diz algo sobre você, não necessariamente é verdade, e cabe a você mesmo fazer essa autocrítica”.

Algumas vezes, a autocrítica realmente reconhecia falhas e me fez corrigir algumas coisas. Mesmo assim, muitos desses adjetivos que listei ainda assombravam aqui dentro, porque – entre outros motivos – sempre dei muita importância para a opinião alheia. E queria estar bem com todos, logo, essas críticas me machucavam bastante. Eu estava me intoxicando com uma culpa que, em alguns momentos, já não fazia mais sentido estar comigo (porque já tinha corrigido o problema) e, em outros momentos, sequer era minha (porque a crítica não tinha nexo algum)! Pois é, tinha algo muito errado comigo.

E demorou muito tempo para eu começar a perceber que algumas dessas críticas não faziam o menor sentido, e que eu não merecia essas qualificações. Eu não era, e muito menos precisava ser, essas coisas. No clipe de “Look What You Made Me Do”, a maneira como Taylor faz piada sobre sua má fama, carregada de sarcasmo e humor autodepreciativo, tornou essa minha identificação pessoal mais palatável, e a injeção – antes dolorida – de realidade agora quase não incomodava.

A partir desse momento, encarei que não se pode ficar lamentando o que não faz parte de você. Internalizei que o Victor a quem vos fala é uma pessoa completamente diferente do Victor que alguns construíram. E eu passei a não ligar nem um pouco com isso. Sigo com as decisões de estar do lado apenas das pessoas que gostam de mim, cercado da galera que me faz bem, e não mais buscando a simpatia de todos (impossível de ser alcançada). Quem me faz mal eu sinceramente quero distância.

A quem continua contribuindo para construir uma reputação ruim da minha pessoa, eu sinceramente sinto pena – porque vai estar desperdiçando energia – e deixo o karma agir por si só. Aliás, se tem um verso da música que posso deixar guardado aqui e que resume toda essa parte mais pessoal do texto, ele é:

“Maybe I got mine, but you’ll all get yours.”

Enfim, para além de toda essa reflexão que podemos tirar, é preciso reconhecer que o clipe é visualmente muito bem construído. Mesmo assim, podemos estar de frente apenas a uma jogada de marketing inteligente, porém não muito original. A própria Katy Perry foi uma das artistas que declarou a morte de suas fases anteriores, antes de lançar “Roar”. Essa estratégia de criar expectativa e desenvolver a curiosidade do público ainda funciona, porém pode não se sustentar e inclusive fracassar.

Contudo, podemos estar realmente diante de uma nova artista, que nunca mais voltará ao country. Podemos agora ver mais uma artista mostrando que não precisa de ninguém para absolutamente nada, e que pode fazer qualquer coisa (é uma representatividade de empoderamento feminino que eu considero necessária, por mais que estejamos falando de uma indústria musical que está inserida na lógica capitalista). Em síntese, podemos estar diante de uma Taylor Swift que fará questão de assegurar o seu espaço na música pop, custe o que custar e doa a quem doer.

Bom, eu aqui só espero que as músicas sejam boas.

E que fiquem no Spotify, porque não quero receber boleto nenhum.

Pode entrar, Reputation.

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Mais uma cena do clipe de “Look What You Made Me Do”
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Deixa ele pensar

Começo essa poesia com algumas perguntas: você sente orgulho de quem é?

Sorri quando se olha espelho, por ser gordo, negro, gay ou mulher?

Anda e fala como quer, veste o que quiser, ignora o que aquele alguém disser?

Ou se fecha pra todos, sem mostrar nem um pouco do seu brilho sequer?

Você diz com convicção, que faz o que faz, porque quer?

Ou reproduz as normas sociais e vive os dias de forma meio… meh?

Você se satisfaz fazendo o que faz, todo dia, por nenhum tostão a mais?

Ou seria capaz de deixar tudo pra trás e seguir uma vida com mais… paz?

Queria que essas perguntas te fizessem pensar, me fizessem pensar

Se nós estamos sendo quem somos, ou se conseguiram nos controlar

Nos limitar, fazer com que sejamos obedientes como um militar

Se no final de tudo, a gente se tocar que nossa identidade não puderam tirar

Deixa o patrão pensar que a gente vai se calar, que a gente não vai lutar

Porque se eles acham que dominam o jogo, é porque não nos viram jogar

—  Victor Hugo Arona

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“O Jogo de Xadrez”, de Ludwig Deutsch (1896)

Nota: Essa poesia foi escrita por mim no início desse ano, quando eu estava bem inspirado e escrevendo diversos poemas um pouco mais sofisticados que os que eu escrevia em 2016. Essa vibe ainda não ressurgiu. Eu também não me permito vibrar naquela frequência novamente, aí fica difícil. Mas eu espero sua volta pacientemente.