Lide apenas com o que você pode lidar

Imagine que uma pessoa precisa levar alguns pratos de um cômodo a outro. Ela decide pegar vários, por volta de dez, e ir equilibrando-os. A princípio, ela está tranquila, consegue fazer isso de forma calma e até exemplar. Depois de alguns minutos, essa pessoa começa a se desequilibrar, fazendo os pratos em sua mão tremularem de forma progressiva. Até que, em um determinado momento, a situação chega a um ponto crítico, em que certamente os pratos irão cair no chão se nada for feito. Imagine o estrago.

Duas semanas se passaram desde a última publicação aqui. Peço desculpas a quem lê meus textos, mas também a mim. Entre tudo que faço, é notável que não coloquei o blog como prioridade. E sinto que deveria, pois gosto de escrever aqui e tudo mais, e porque sei que o que faço aqui é importante. Bom, duas semanas se passaram desde a última publicação aqui porque, basicamente, essa pessoa com os pratos sou eu.

A primeira coisa que me vem à mente quando penso nessa problemática dos pratos envolve o fato de que, por muito tempo, um dos aspectos principais da minha personalidade foi o que batizei de Complexo de Atlas. Na mitologia greco-romana, Atlas era o titã que, por ordens de Zeus, passou a ter a função de – sozinho – sustentar a abóbada celeste sobre seus ombros. Isso por si só já explica o que eu quero dizer com esse forte aspecto da minha personalidade.

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Pintura do titã Atlas carregando os céus (Autor Desconhecido)

Além disso, devido a um perfeccionismo que, por vezes se mostrava tóxico a mim, sempre senti que deveria executar da melhor forma tudo em que me envolvia. Nunca foi aceitável para mim ser medíocre, ter um baixo desempenho, ou apenas ser “mais ou menos” no que me colocava para fazer. Talvez isso se deva pelo fato de que sempre exigiram muito de mim, não sei. Só sei que foi a causa de muitos problemas, já que por causa disso eu não sabia lidar com críticas (que sempre me deixavam muito triste ou muito irritado). Resumo da ópera: durante toda a minha vida, tentei segurar o mundo com a mão, fazendo tudo de uma forma impecável. Pense no estrago que essas coisas poderiam gerar.

E foi um estrago daqueles. Eu parecia estar sempre carregando uma tonelada de culpa e – assim como Atlas – sofria com um peso nos meus ombros. E as crises demoraram muito a diminuir de frequência e intensidade. Demorou muito para esses aspectos da minha personalidade se enfraquecerem, e eu começar a ficar mais tranquilo em relação ao meu desempenho. É curioso perceber que foi logo no espaço acadêmico que isso aconteceu, já que este é um meio muito nocivo que muitas vezes cobra mais do que você pode oferecer (é provável que esse seja um tema para um texto futuro).

Mesmo assim, por mais que eu tenha começado a desencanar do meu perfeccionismo, ainda pecava em me envolver em muitas coisas. Ainda teimava em carregar muitos pratos comigo. Como também passei a me envolver com militância, isso se tornou ainda mais grave, uma vez que eram coletivos (no plural mesmo) de um lado e gestão do curso de outro, eram comissões de um lado e grupos de mobilização de outro. O mundo ainda tá todo errado e tem mudança demais para ser feita. E eu sentia que tinha que participar em várias frentes, porque afinal, ainda falta muito, sabe?

Bom, o tempo foi passado e fui vendo que tudo estava se tornando insustentável. Por mais que eu tivesse diminuído a minha exigência própria e tivesse atenuado esse perfeccionismo, não estava conseguindo acompanhar tudo que acontecia. Comecei a me desequilibrar, entrar num estado de exaustão bizarro, e me pôr em xeque. Depois de perceber que não estava tendo um desempenho sequer satisfatório nas dezenas de espaços em que me envolvi (pois simplesmente era impossível para qualquer ser humano), resolvi parar de equilibrar dezenas de pratos e seguir num processo de carregar apenas alguns comigo. Até porque, é melhor um prato inteiro na mão do que dois quebrados no chão (uma releitura dessas, bicho).

Há alguns dias atrás, comecei a aprimorar isso, e melhorar a forma como eu lidava com as minhas responsabilidades. É um esforço diário, porque me apeguei a todos os espaços em que me coloquei presente. É também uma mudança profunda, que se relaciona com características sólidas do meu ser. Logo, sigo no processo de internalizar que é possível deixar os outros pratos para outras pessoas carregarem, e que em alguns momentos, elas até vão desempenhar essa função melhor do que eu. Também sigo me esforçando para acreditar que não precisamos ser os melhores no que nos colocamos para fazer, podemos tentar apenas ser melhores a cada dia. É muito mais saudável.

Ainda na mesma vibe do menos é mais, que venho tratando até com uma certa regularidade no blog, eu agora pensarei mais nos espaços que irei atuar, a fim de agir oferecendo o que posso oferecer, e não mais de uma maneira danosa. E apesar de ser um texto em primeira pessoa, trago a partir de mim uma reflexão que todos deveriam ter acerca do que podem fazer por si e pelos outros, afinal de contas, ninguém precisa estar em todos os espaços para a construção de um mundo melhor. E não tem nenhum problema nisso.

Essa discussão da impossibilidade de estar em todos os ambientes e agir visando a perfeição perpassa por um pensamento que devemos sempre carregar conosco, que apesar de óbvio pode nunca vir à tona: somos humanos, e não devemos esquecer disso. Apesar de sermos capazes de realizar feitos magníficos, todos nós sempre seremos limitados (principalmente pela nossa temporalidade e materialidade).

Portanto, não devemos esquecer que somos humanos. Não somos como titãs, como Atlas. E uma característica intrínseca do ser humano (eu poderia dizer que é uma das faces de sua essência) é a de – por mais paradoxal que pareça – pura imperfeição.

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Olha o que você me fez fazer

Quem minimamente acompanha o mundo da música pop já sabe da nova (agora não tão nova assim) música da Taylor Swift. Em poucos dias de lançamento, eu já pude ver diferentes reações das pessoas de dentro do meu círculo social: algumas elogiaram e/ou adoraram a música, enquanto outras se posicionaram contra a música, demonstrando um sincero incômodo e – em alguns casos – até nojo.

Como muitas outras músicas , comecei não gostando nem um pouco de “Look What You Made Me Do”. Achei repetitiva e nada memorável, com um refrão muito chato, mesmo só tendo escutado uma vez. Dias depois, o clipe foi lançado, e essa música passou a ser a mais executada no meu perfil do Last.fm. Uma das cenas do videoclipe virou capa do meu Facebook. Eu praticamente fiquei viciado e me esforcei em aprender a letra e saber tudo sobre essa nova fase da artista. Tá, mas por que um vídeo mudou tanto a situação?

É importante dizer que eu escreveria sobre isso antes, mas por algum motivo estou publicando esse texto só hoje. De certa forma, isso é ótimo, porque o hype passou e poderei agora emitir uma opinião com mais segurança e sinceridade.

Taylor Swift é uma pessoa que, sem dúvidas, divide opiniões, não é mesmo? Há quem não suporte a existência dela, e há quem a defenda com unhas e dentes. Eu, por exemplo, já fui de botar mais a minha mão no fogo por artistas, mas hoje tenho diminuído a frequência disso, principalmente porque tenho tido muita preguiça para tal. Sem contar o fato de que não estou ganhando nada para isso, e que essas pessoas – em um determinado momento – podem falar uma merda tão grande que vou considerar aquilo indefensável. Sigo então esse texto sem muitos amores (mas também sem muito ódio), me distanciando ao máximo das polêmicas. O fato é que ela teve problemas com muitas pessoas ao longo de sua carreira.

Vocês podem estar do lado dela ou não, mas precisam reconhecer que a reputação dela não é a das melhores. E um dos motivos de ter desenvolvido tanta afeição à essa nova era da Taylor foi a maneira como ela trabalhou esse elemento, que será o título do seu álbum ainda não lançado: “Reputation”. Em outras palavras, a forma como essa autocrítica (envolvendo sua imagem pública), se desenvolve ao longo do clipe, sendo trabalhada em mínimos detalhes e com um senso artístico que considerei impecável, já foi o suficiente para eu vê-lo mais de cinco vezes por dia.

Uma das coisas presentes no clipe que eu mais gostei foram os detalhes referentes a todos os principais conflitos que Taylor já teve. Ela pensou em tudo, colocando desde o seu pseudônimo numa lápide até ela mesma em uma banheira de diamantes. Todo o perfeccionismo e os conceitos inseridos no vídeo – como as cobras, os fotógrafos e todas as eras anteriores da artista – fazem com que “Look What You Made Me Do” já ganhe o meu prestígio.

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No trono, está presente a frase “et tu brute”, o epíteto da traição

Além disso, a obra também criou em mim um elo de empatia muito forte. Esse elo se desenvolveu por um simples motivo: identificação pessoal. A minha reputação também não é nem um pouco boa, e eu já fui chamado de muitas coisas. Falso, manipulador, não confiável, infiel, superficial, dramático, irritante, irresponsável, exagerado e infantil foram alguns dos adjetivos que me engatilharam muitas crises ao longo da minha vida. Até o momento em que tive que escrever num bloco de notas (!) a seguinte frase: “se alguma pessoa diz algo sobre você, não necessariamente é verdade, e cabe a você mesmo fazer essa autocrítica”.

Algumas vezes, a autocrítica realmente reconhecia falhas e me fez corrigir algumas coisas. Mesmo assim, muitos desses adjetivos que listei ainda assombravam aqui dentro, porque – entre outros motivos – sempre dei muita importância para a opinião alheia. E queria estar bem com todos, logo, essas críticas me machucavam bastante. Eu estava me intoxicando com uma culpa que, em alguns momentos, já não fazia mais sentido estar comigo (porque já tinha corrigido o problema) e, em outros momentos, sequer era minha (porque a crítica não tinha nexo algum)! Pois é, tinha algo muito errado comigo.

E demorou muito tempo para eu começar a perceber que algumas dessas críticas não faziam o menor sentido, e que eu não merecia essas qualificações. Eu não era, e muito menos precisava ser, essas coisas. No clipe de “Look What You Made Me Do”, a maneira como Taylor faz piada sobre sua má fama, carregada de sarcasmo e humor autodepreciativo, tornou essa minha identificação pessoal mais palatável, e a injeção – antes dolorida – de realidade agora quase não incomodava.

A partir desse momento, encarei que não se pode ficar lamentando o que não faz parte de você. Internalizei que o Victor a quem vos fala é uma pessoa completamente diferente do Victor que alguns construíram. E eu passei a não ligar nem um pouco com isso. Sigo com as decisões de estar do lado apenas das pessoas que gostam de mim, cercado da galera que me faz bem, e não mais buscando a simpatia de todos (impossível de ser alcançada). Quem me faz mal eu sinceramente quero distância.

A quem continua contribuindo para construir uma reputação ruim da minha pessoa, eu sinceramente sinto pena – porque vai estar desperdiçando energia – e deixo o karma agir por si só. Aliás, se tem um verso da música que posso deixar guardado aqui e que resume toda essa parte mais pessoal do texto, ele é:

“Maybe I got mine, but you’ll all get yours.”

Enfim, para além de toda essa reflexão que podemos tirar, é preciso reconhecer que o clipe é visualmente muito bem construído. Mesmo assim, podemos estar de frente apenas a uma jogada de marketing inteligente, porém não muito original. A própria Katy Perry foi uma das artistas que declarou a morte de suas fases anteriores, antes de lançar “Roar”. Essa estratégia de criar expectativa e desenvolver a curiosidade do público ainda funciona, porém pode não se sustentar e inclusive fracassar.

Contudo, podemos estar realmente diante de uma nova artista, que nunca mais voltará ao country. Podemos agora ver mais uma artista mostrando que não precisa de ninguém para absolutamente nada, e que pode fazer qualquer coisa (é uma representatividade de empoderamento feminino que eu considero necessária, por mais que estejamos falando de uma indústria musical que está inserida na lógica capitalista). Em síntese, podemos estar diante de uma Taylor Swift que fará questão de assegurar o seu espaço na música pop, custe o que custar e doa a quem doer.

Bom, eu aqui só espero que as músicas sejam boas.

E que fiquem no Spotify, porque não quero receber boleto nenhum.

Pode entrar, Reputation.

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Mais uma cena do clipe de “Look What You Made Me Do”

Por favor, pare (e se quiser, leia isso aqui)

O tempo anda muito corrido para mim, de verdade. O último texto que possuía material original (e não algum texto reciclado ou reformulado) tinha como imagem o coelho do filme de Alice no País das Maravilhas, só para vocês terem uma ideia da situação. Muitas coisas estão pipocando (a volta às aulas na UERJ já explica muita coisa), e estão gerando algumas coisas incômodas para mim.

Há algumas semanas mesmo, eu me peguei incapaz de acompanhar o ritmo de tudo e sinto que o blog acaba sofrendo por tabela. Preciso parar para respirar. Quando digo que o blog sofre por tabela, é porque ando perdendo o timing de temas dos textos. Ando tendo várias ideias e quase nenhum tempo e/ou inspiração para escrever, até que essas ideias começam a se tornar “obsoletas”. E isso me deixa muito impaciente. Preciso parar para respirar. Já não consegui postar ontem, e sigo na humildade – porém levemente triste – com esse texto como se nada tivesse acontecido e o atraso não tivesse existido.

Preciso

parar                                               para

respirar.

Em meados de agosto, vivenciei um momento de muita paz e tranquilidade, e quem me acompanha aqui sabe que teve até um post envolvendo o assunto maquiado de crítica musical. Com a entrada do mês de setembro isso começou a se perder, justamente quando eu voltei a conviver em sociedade. Claro que esse estresse também surgiu com as responsabilidades e deveres (pois é, sou uma pessoa ansiosa e muito perfeccionista) da vida, mas é engraçado perceber como o período de calmaria se deu quando eu estava apenas com a minha própria companhia.

Calma. Antes que você diga alguma coisa, não estou dizendo que todas as pessoas precisam viver completamente sozinhas, até porque somos seres sociais e acredito que o ininterrupto isolamento não nos faz bem. Mas a pergunta que trago aqui é: quando foi a última vez que você se permitiu estar com você e com mais ninguém? Quando foi a última vez que você se viu de frente contigo?

Bom, a tranquilidade que inundou minha vida se deu também devido a outros elementos. Além do fato de eu não estar tendo aulas, decidi imergir no budismo novamente (inclusive, quero muito falar desse assunto aqui). Mesmo assim, como disse, essas duas coisas caminham com o fato de que preferi trilhar minha vida apenas comigo. Passei um bom tempo em casa, lendo e vendo coisas que me faziam bem, e na maioria das vezes em que eu saía estava sozinho. Deixava meu celular num canto e passava o dia todo sem tocar nele, sem falar com ninguém. Comecei a meditar com regularidade e ouvia músicas que gostava demais.

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Cena do filme Into The Wild (2008), do diretor Sean Penn

 

É engraçado pensar que algumas pessoas acharam que essa distância que eu estabeleci com o mundo aconteciam só com elas, e inclusive muitas dessas não ficaram nem um pouco felizes com esse meu momento. Tive que ler que estava sendo frio, distante e seco de propósito, e precisei me manter firme frente a algumas acusações meio sem nexo. Não culpo e nem fico triste com essas pessoas, realmente as entendo. Mas ainda assim, eu também entendo a necessidade deste afastamento, e infelizmente não posso fazer nada pelas pessoas que reclamaram tanto. Espero que entendam que o motivo disso não envolveu nada cruel ou banal. Pelo contrário.

Eu não era acostumado a esses momentos de solitude (essa é a palavra mais adequada) até os últimos meses, quando passei a experimentar ir a alguns lugares sozinhos. Desde então, me vi como a minha melhor companhia e decidi que precisaria tirar mais alguns momentos só para mim. Acredito que a gente teme dizer algo como “me vi como a minha melhor companhia” ou algo parecido, porque “soa egoísta”, mas acho que tal pensamento está longe de ser egoísta. Como em alguns textos que eu já li, dar mais atenção para você não é egoísmo, é autopreservação.

Outro motivo que fez com que eu decidisse passar dias sem ver ninguém, envolveu uma recente percepção minha. Notei que frequentemente sofria e tinha oscilações emocionais significativas por causa de influências externas, mas principalmente devido a incongruências internas. Calma que eu vou explicar.

Acredito que cada um de nós possui a capacidade de levar para dentro de si elementos do exterior, como o que vem de outras pessoas. Obviamente, cada pessoa absorve isso de certa forma e intensidade: pessoas que não se importam muito com o exterior absorvem pouco ou quase nada de fora, enquanto pessoas que vivem pelos outros (interprete como quiser) são influenciadas fortemente pelas outras pessoas. Eu me vi como parte desse segundo grupo. Comecei a me identificar como alguém que absorvia muitas coisas de outras pessoas, e esse contato extremo (até porque sempre fui muito social) estava me trazendo consequências ruins. Como disse a algumas pessoas, eu estava sendo praticamente uma esponja energética (há quem acredite nessas coisas).

As crises que vivenciei também vinham – ao meu ver – da forma como eu lidava com as coisas ao meu redor (daí a incongruência interna). Além de absorver muito do exterior e dar muita importância para tudo que vinha de fora, eu também não estava bem comigo mesmo, fazendo essas coisas ecoarem de uma forma muito ruim dentro de mim e gerando consequências terríveis. Eu estava ficando triste ou irritado com qualquer coisa, e encarava de peito aberto (e sem defesas) tudo que surgia. Eu ainda agia com muita ingenuidade e idealismo, ainda encarava tudo com uma sutil imaturidade e uma tendência autodestrutiva nociva. Comecei a me dar conta que estava começando a não conseguir lidar com as pessoas, e a situação ficou insustentável. Não podia mais prejudicar pessoas por deficiências minhas, por problemas que tinha que resolver comigo.

Afinal de contas, muitos problemas só conseguimos resolver conosco.

E no final, decidi dar um bom tempo para o mundo. Passei a olhei mais para dentro e, a cada dia que eu passava somente com a minha presença, fui notando uma melhora. Paralelo a esses momentos de solitude, comecei a ver que era preciso viver com um pouco mais de simplicidade, e abracei o menos é mais. Me afastei de tudo que considerei prejudicial, inclusive algumas pessoas que ainda não entendi porque ainda mantinha perto de mim. Não me arrependi, inclusive notei a importância de fazer isso com uma certa regularidade. Agora só preciso reorganizar a vida e conciliar os momentos de convivência social intensa com os momentos de convivência comigo.

Enfim, os pontos de vista que aqui nesse texto me proponho a mostrar, creio eu, não servem a todas as pessoas (como disseram para mim uma vez, todo ponto de vista é a vista de um ponto). O maior exemplo disso é que as pessoas introspectivas tiveram vivências completamente diferentes das minhas, logo, podem precisar vivenciar outras coisas, que não a solitude.

Entretanto, percebo que estamos imersos num mundo muito social e interligado, que não permite – de certa forma – a gente ter esse momento conosco. Mesmo quando achamos que estamos sozinhos, não estamos: o celular vibra, notificando mais uma mensagem no WhatsApp. Parando para pensar, agora isso é até um pouco perturbador para mim.

Além disso, o mundo está cada vez mais veloz, o sistema faz com que a gente tenha que trabalhar mais e mais para fazer o capital se multiplicar (as pessoas precisavam ouvir David Harvey, cara). Pode parecer paranoico para alguns de vocês, mas o capitalismo não nos dá mais tempo para estar com a nossa própria companhia. Há quem diga que é proposital, porque esse tempo pode despertar em nós a consciência da melhor forma de lutar contra essa opressão diária.

Prefiro aqui não me arriscar muito. Mas uma coisa é certa.

Precisamos parar para respirar. Sem mais ninguém, de preferência.

Crônicas d’um encontro imprevisto

Estaria mentindo se dissesse que não sabia de nada sobre aquela pessoa que fui ver aquele dia. Estaria mentindo se dissesse que não fui, em nenhum momento, alertada. Estaria mentindo se dissesse que não estava um pouco receosa. Mesmo assim, esse receio estava misturado com a euforia de um encontro imprevisto por mim, e que estava prestes a acontecer. Achei que mesmo com tudo isso, eu deveria arriscar, porque afinal podia ser uma experiência satisfatória.

Horas antes do encontro, convencionalidades já se mostraram presentes, e coisas como aceleração dos batimentos, boca seca e um balançar de braços e pernas engraçado tomaram conta de mim. Até que eu cheguei ao lugar onde marcamos. Pouco esperei até ela chegar também.

Bom, logo quando eu a vi, nada senti de muito preocupante. A simpatia e receptividade dela fez com que o receio – que até então me afogava – parecesse ser uma coisa muito boba e desnecessária. Além disso, o seu rosto era hipnotizante e literalmente magnético. O coração se acalmou, e eu me vi como em todo primeiro encontro que costumava ter. Lá estava eu sem armaduras, espadas ou escudos, e guiado por uma pitoresca confiança apressada. O próprio Arcano 22, novamente.

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“Cafe sur la Promenade 2”, de Ira Tsantekidou – 2007

A interação entre nós dois fez-se acontecer, e as conversas foram se desenvolvendo. Eu ainda tinha as informações sobre aquela pessoa comigo, e as mantive como uma criança mantém suas pelúcias preferidas: intocadas e seguras no cantinho mais escondido da minha inconsciência. Eu não queria me deixar levar por conceitos e visões pré-concebidas de alguém que eu estava conhecendo agora, sabe? Além disso, eu não podia permitir que ela soubesse das coisas que eu sabia. Seria o fim do mundo para mim e para outras pessoas.

Assuntos diferentes sobre nossas existências foram sendo tratados, percorridos avidamente por mim e por ela como boas histórias infanto-juvenis. O tempo andava rápido naquele nosso diálogo, que devia ter envolvido – dói-me não lembrar – temas triviais e outros não muito. Andava tão rápido, que parecia correr ao nosso redor, formando uma bolha imobilizante, porém sutil.

Enquanto falávamos de qualquer um desses assuntos, a minha interlocutora me lançou uma pergunta não muito confortante, pois envolvia uma informação que eu estava guardando no âmago do meu ser. Aquelas informações sobre ela. A partir dali, o tempo pareceu parar de nos rodear e personificar-se ao meu lado, me observando pacientemente. Desviei da pergunta, respondi qualquer coisa que fez com que eu não me colocasse em xeque sozinho. O tempo voltou a caminhar como antes (mas não mais tão rápido), e aparentemente tudo voltou ao normal. Até vir a segunda pergunta.

Ela aparentava saber de alguma coisa, ela aparentava ter percebido algo que eu estava escondendo. E eu estava. Me pus a pensar que não estava escondendo tudo tão bem. Outras inquisições se sucederam, e o cenário daquela conversa começou a se tornar aterrorizante. Naquele momento, todas as informações que eu guardava comigo, até as mais ordinárias – como meu sabor de sorvete preferido – pareciam precisar ser trancadas a sete chaves também. Eu comecei a sentir que qualquer coisa minha podia ser usada, por aquela pessoa, contra mim mesma. Todas as histórias que eu sabia sobre ela estavam tomando conta dos meus pensamentos, e provando que aquela pessoa podia mesmo fazer qualquer coisa com o que agora sabia de mim.

A partir daí, eu comecei a me ver à frente de alguém que estava fazendo de tudo para descobrir o que queria, seja com palavras ou apenas com o olhar. No instante em que o tempo parou novamente para me encarar, passei a visualizar de uma pessoa altamente ameaçadora, que simplesmente por coexistir comigo ali já me tornava menor e mais fraca. Uma pessoa que tinha muitos pontos fracos conhecidos, mas que mesmo assim dava medo, porque a sua história não era totalmente conhecida para mim. Já a minha parecia ser completamente conhecida para ela.

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“Verre de vin le soir”, de Ira Tsantekidou – 2007

Pela primeira vez na vida, eu me senti num terreno hostil, e sem nada para me proteger. Senti os arrependimentos de ter me despido de todas as armaduras e armamentos no início daquela conversa, senti a angústia de não conseguir escapar desse ambiente de uma forma inteligente. Eu tentava me desviar de todos os ataques daquela pessoa, e de todo o sentimento de pânico que teimava em ressurgir.

Entretanto, mesmo estando um bom tempo nesse terreno hostil, eu decidi seguir em frente. Não iria fraquejar, e nem me dar por vencida. A partir dali, eu não iria deixar o olhar daquela pessoa vasculhar minha alma, e eu avancei com uma agressiva coragem travestida de ingenuidade. Desviei de outras perguntas, devolvendo todas com uma postura firme e resoluta.

Essa iniciativa curiosamente fez a inimiga virar minha melhor aliada. Pareceu um terrível erro entrar num ambiente tão perigoso, mas antídotos para picadas são tirados dos próprios venenos. Por muito tempo ali, eu fui um pássaro que foi rodeado de forma insistente por uma serpente, que tentava – a todo custo – dar a investida certeira. Só que águias também são pássaros. E elas adoram serpentes.

Com tudo isso, é certo que eu aprendi uma coisa: uma experiência prazerosa e simples pode se tornar desesperadora e aterrorizante. Além disso, aprendi também que existem pessoas que podem te prevenir de todo e qualquer mal, como as que me alertaram nessa situação. Bom, quanto a isso eu apenas digo: abrace os conselhos dessas pessoas como uma criança abraça suas pelúcias preferidas.

— Victor Hugo Arona

 

Nota: Essa crônica foi escrita há mais ou menos um ano atrás, e as observações sobre sua criação não precisam ser explicitadas. Algo necessário a ser dito é que, para a publicação aqui no blog, ela foi adaptada e melhorada.

 

Deixa ele pensar

Começo essa poesia com algumas perguntas: você sente orgulho de quem é?

Sorri quando se olha espelho, por ser gordo, negro, gay ou mulher?

Anda e fala como quer, veste o que quiser, ignora o que aquele alguém disser?

Ou se fecha pra todos, sem mostrar nem um pouco do seu brilho sequer?

Você diz com convicção, que faz o que faz, porque quer?

Ou reproduz as normas sociais e vive os dias de forma meio… meh?

Você se satisfaz fazendo o que faz, todo dia, por nenhum tostão a mais?

Ou seria capaz de deixar tudo pra trás e seguir uma vida com mais… paz?

Queria que essas perguntas te fizessem pensar, me fizessem pensar

Se nós estamos sendo quem somos, ou se conseguiram nos controlar

Nos limitar, fazer com que sejamos obedientes como um militar

Se no final de tudo, a gente se tocar que nossa identidade não puderam tirar

Deixa o patrão pensar que a gente vai se calar, que a gente não vai lutar

Porque se eles acham que dominam o jogo, é porque não nos viram jogar

—  Victor Hugo Arona

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“O Jogo de Xadrez”, de Ludwig Deutsch (1896)

Nota: Essa poesia foi escrita por mim no início desse ano, quando eu estava bem inspirado e escrevendo diversos poemas um pouco mais sofisticados que os que eu escrevia em 2016. Essa vibe ainda não ressurgiu. Eu também não me permito vibrar naquela frequência novamente, aí fica difícil. Mas eu espero sua volta pacientemente.

Comunicados necessários para seguir adiante

Olá! Como vai a vida? Bom, vim aqui para fazer comunicadinhos que considerei importantes. Vai ser rapidinho.

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Esse coelho poderia ser eu nos últimos dias

Em primeiro lugar, peço desculpas a quem esperou algo ser publicado ontem e não viu nada (mesmo eu imaginando – sem pessimismos, longe disso – que ninguém esperou post nenhum). Acontece que vários acontecimentos surgiram ao longo da semana e impediram novas postagens. Eu também preciso parar de adiar a produção dos textos até o último dia, então reconheço que parte da culpa é minha (hehe). E aproveitando que não postei ontem, decidi repensar as postagens aqui e tudo mais (calma, o blog não vai morrer).

Desde a publicação do primeiro artigo aqui – o de apresentação mesmo – uma pendência me incomodava: em nenhum momento estabeleci frequências de postagem. Sempre preferi que fosse uma postagem por semana e a princípio, eu publiquei somente aos sábados. Ainda quero publicar aos sábados, por dois motivos: além de ser o Dia de Saturno, meu mestre e padrinho, sábado é simbólico porque é um dia que eu fico geralmente em casa (por opção) enquanto muitos saem. O meu blog serve também aos que, como eu, não saem nos sábados à noite.

Contudo, também quero postar em um outro momento da semana, e escolhi a quarta-feira por possuir um intervalo de tempo bacana em relação a sábado e porque é o Dia de Mercúrio, meu outro mestre e padrinho (um dia posso falar mais sobre essa relação curiosa). Então, a partir de hoje, experimentarei duas postagens por semana. Vamos ver se vai dar certo.

Além disso, algo que eu comecei a pensar e organizar, além do layout do site que – vira e mexe – mudava, foram os assuntos, categorias e tags do blog. A princípio, as categorias foram “Sociedade” e “Entretenimento”, além de “Comunicados” . Mas eu sempre achei elas incompletas para o que eu queria fazer. Por isso, pretendo criar outras categorias, totalizando seis:

  • Comunicados: essa precisa se manter, para separar os posts que eu uso para dar recados e atualizações do site para vocês;
  • Sociedade: essa também precisa se manter, e diz respeito aos posts que se encaixam na temática sociológica (como o post envolvendo a questão prisional), antropológica ou política (como o post sobre a Venezuela);
  • Música: a categoria “Entretenimento” era muito ampla para os meus intuitos em relação ao blog, e essa nova categoria foi criada para contemplar somente os posts sobre música, como o post muito bem-sucedido – a propósito, muito obrigado a todas as pessoas que leram – sobre o álbum do Cícero;
  • Literatura: essa categoria nova, que poderia ser incluída na antiga “Entretenimento”, irá conter todos os meus poemas, contos e histórias que eu já escrevi e irei escrever (senti a necessidade de criar esse espaçozinho);
  • Cinema: outra categoria nova que poderia ser incluída na antiga “Entretenimento”, mas que agora terá a sua própria. Assim como obras da música, tenho a vontade de escrever sobre filmes diversos, além de temáticas inseridas nesses filmes e reflexões originadas de obras da sétima arte;
  • Ocultismo: apesar do nome curioso que evoca somente as ciências ocultas, como astrologia e tarô, quero também aqui tratar de todo e qualquer assunto que envolva religião e religiosidade. Nessa seção, eu faço questão de abrir mão de cientificismos terrenos e racionalismos limitantes.

No que diz respeito às tags, eu pretendo começar a utilizá-las para subdividir posts da mesma categoria e facilitar a navegação no blog.

No mais, acho que isso é tudo, pessoal. Espero ter chegado a um nível de harmonia significativo e confortável, e ter preenchido algumas lacunas. Esse post caminha com o fato de que, há algum tempo, eu uma página inicial para o blog e uma página para entrar em contato comigo. E com isso tudo, acho que estamos começando a caminhar com o pé esquerdo. E, para um canhoto como eu, caminhar com o pé esquerdo é ótimo.

Mas afinal, eu sou de esquerda?

As últimas semanas tem sido bastante politizadas para mim. Nesse momento, estou envolvido em atividades de greve – que diga-se de passagem, está em momentos críticos – na minha universidade como delegado de curso, membro de uma gestão e membro de um coletivo. A efervescência de acontecimentos que envolvem, por exemplo, passeatas nazistas também contribuíram para que, em diversos dias, eu me pegasse em contato com algo que envolvesse – em algum grau – um tema de cunho político-ideológico. Eu poderia estar escrevendo especificamente sobre isso de uma forma mais focalizada, específica e detalhada. Poderia estar escrevendo sobre a construção política da UERJ, ou de como está sendo toda experiência em seus múltiplos espaços, mas farei diferente.

Esse meu engajamento político, juntamente com todos esses acontecimentos fizeram eu começar a questionar o que eu realmente acredito e o que eu realmente defendo, porque são nos momentos de crise que a desconstrução e reconstrução podem surgir. Entre os pensamentos que circularam pela minha cabeça, um tema em específico se fez presente algumas vezes. Guiado por todo esse panorama conjuntural que vivo e também por debates que tenho tido com pessoas de fora do meu círculo social, uma pergunta surgiu: qual é a minha ideologia?

Desde que me entendo por gente, oscilei por muitos espaços de pensamento. Já acreditei e deixei de acreditar em muitas coisas, já segui e deixei de seguir muitas outras. Quando percebi que não era ruim ser ambíguo, a partir do momento que eu dosasse bem essa característica e não ferisse ninguém, abracei a ambiguidade* como parte de mim e das minhas decisões. E sempre tive um certo orgulho de poder entender todos os lados de todas as moedas, de poder entender o porquê de cada pessoa pensar de cada maneira. Essa característica curiosa da minha personalidade sempre permitiu que eu pudesse ter qualquer ideologia e que eu sentisse empatia por qualquer um. Por muito tempo, não vi necessidade em manter uma constância de opiniões e considerei que estava tudo bem.

* É importante dizer que a ambiguidade na qual eu me refiro não significa imparcialidade

Só que chega um determinado momento que é preciso ter uma certa constância de opiniões e tomar uma decisão própria. Não dá para viver pelos outros, assim como não dá para abraçar o mundo com a mão. Por mais que eu entenda todas as ideologias, muitas delas se contradizem quando são sobrepostas e se tornam inviáveis em conjunto. A partir daí, se a intenção é agir, e de forma objetiva, a ambiguidade e inconstância não podem mais existir e é preciso escolher um lado da moeda. Isso não quer dizer ser intransigente, ser limitado, ser inflexível ou abandonar a diplomacia, mas sim perceber que a ambiguidade não é prática e que não dá para agradar todo mundo.

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Placas em New York, cada uma com seus escritos de “one way

Sabendo que praticamente todas as decisões passam pelo crivo da ideologia e da visão de mundo, eu precisava me encontrar no meio disso tudo. Paralelamente a esse caos de “mas o nazismo é de esquerda” (risos), eu fui primeiramente procurar tudo que se refere ao eixo esquerda-direita. Eu precisava saber o que eu era e no que eu acreditava antes de defender uma identidade política, não é mesmo?

Para quem não sabe, os conceitos de esquerda e direita surgiram na Revolução Francesa. No parlamento francês, as pessoas que eram contrárias à hierarquias e privilégios, além de outras lógicas presentes fortemente no Antigo Regime sentavam-se à esquerda. Em reação a isso, as pessoas que se posicionavam contra esses pensamentos, defendendo a tradição e considerando inevitáveis algumas lógicas do Antigo Regime (como as próprias ideias de hierarquia) sentavam-se à direita. Obviamente, esses conceitos estão em constante transformação, e em várias sociedades após a França Revolucionária existiram diversas esquerdas e direitas. Mesmo assim, esses conceitos ainda se mantém presentes e fortemente caracterizados (por mais que algumas pessoas tenham a coragem de negar ou relativizar), fazendo com que todas as pessoas ainda hoje possam ser posicionadas nesse eixo tão complexo.

Atualmente, para além dos juízos de valor, podemos considerar que a esquerda é a camada da sociedade que nega a ideia de desigualdade como algo natural, preza pela equidade e bem-estar social e luta para mudar o status quo. Além disso, podemos considerar que a esquerda valoriza as ideias de comunidade e de espaço público. Enquanto isso, a direita é a camada da sociedade que considera que a desigualdade é inevitável, preza pela tradição e hierarquias sociais e deseja manter o status quo. Podemos considerar que a direita valoriza as ideias de indivíduo e de espaço privado.

Incomoda bastante perceber como esses conceitos – propositalmente – são tratados de forma tão equivocada e degenerada no senso comum, como quando as pessoas dizem que “esquerda” se refere à Estado forte e que “direita” se refere à Estado mínimo. É assustador notar como que se posicionar à esquerda (assim como se posicionar à direita) se tornou um motivo para levar pedrada, porque isso prova que está cada vez mais visível a onda de polarização política que impossibilita o debate e só fortalece as bolhas sociais. Também é bastante incômodo perceber como muitas pessoas defendem uma bandeira com unhas e dentes, mas sequer entendem o que estão defendendo, provando que são politicamente fanáticas e ideologicamente acríticas. E isso gera um desconforto enorme em mim.

Desde já, declaro que existe um mundo dentro da esquerda e um mundo dentro da direita que não pretendo aqui explicitar, e que para o eixo esquerda-direita abarcar todas as ideologias políticas precisaria estar atrelado a – pelo menos – outros eixos (como o de liberdade-autoridade). Mesmo assim, a partir das definições de esquerda e direita que trouxe, posso me considerar desde muito tempo como alguém de esquerda, e por vários motivos.

Eu não consigo estabelecer como prioridade do governo o crescimento do PIB em detrimento de boas condições para a sociedade. Eu não consigo acreditar que um governo que prioriza empresas favorece o povo, afinal o lucro gerado sempre será direcionado aos donos de empresas. Sabemos que o dinheiro muda a cabeça de muitas pessoas, então porque acreditaríamos que um grande empresário vai preferir dar boas condições aos seus trabalhadores do que lucrar mais? A prioridade dada pelo setor da direita ao mercado e à economia me incomodam bastante, e por essas e outras eu me considero uma pessoa de orientação política à esquerda. Para mim, o papel do governo é dar qualidade de vida às pessoas, fornecendo os serviços essenciais à população, como saúde, educação, moradia e transporte. Esses serviços devem ser públicos, gratuitos e universais.

Eu discordo completamente da lógica do livre comércio, defendida por um grupo da direita, por muitos motivos: sabemos que o sistema capitalista teve ao longo da sua história diversas crises. Muitas delas se deram justamente pelo próprio liberalismo (a última grande crise, em 2008, se deu justamente pela livre circulação de capital financeiro e especulação imobiliária) e geraram consequências sociais pesadas, como as que podemos sentir na pele atualmente (não, isso tudo não foi gerado pela corrupção do PT). Além disso, o discurso de competição entre empresas no livre comércio que gera preços baixos à todas as pessoas é utópico, pois as maiores empresas ditam as regras do jogo e os monopólios são inevitáveis.

Além disso, muitas vezes que liberais falam de uma gestão de livre comércio, falam em privatizar empresas, falam em enxugar a máquina pública e cortar serviços públicos, alegando que isso “gasta muito” e que isso “gera problemas”. Em primeiro lugar, no caso do Brasil isso é falacioso, porque aqui tais serviços não geram gastos exorbitantes como dizem. Em segundo lugar, privatização gera, entre outras coisas, a seguinte configuração: utiliza o serviço quem pode pagar.  Numa sociedade que já é extremamente desigual, dar essa configuração a todos os serviços sociais, como saúde e educação, é querer que apenas uma camada tenha acesso.

Eu não sou o maior conhecedor de economia, e nem quero ser. Não quero nesse texto apontar a solução para os problemas sociais e a melhor forma de intervenção estatal, simplesmente porque sou um geógrafo, e não um economista (e também não quero dar um teor economicista para esse texto). Mas uma coisa é certa: um modelo de política à esquerda é possível.

Agora, se existem ou não erros em setores da esquerda, é outra coisa completamente dissociada. Mesmo me identificando como alguém dessa orientação política, não ignoro o fato de que existem pessoas que pensam de forma diferente da minha, e até cometem erros graves. Ao contrário de alguns da direita (assim como alguns da esquerda), eu me coloco sempre numa posição (auto)crítica e não iludo ninguém com posturas moralistas mentirosas de “aqui nada disso acontece, essa imundície está no outro lado”.

Enfim, eu ainda estou em processo de subsidência ideológica, no qual eu ainda vou me encontrar dentro da esquerda que, como eu disse, é um mundo. Sinto que ainda preciso fortalecer bases teóricas, ler bastante e – claro – colocar em prática o que aprendo. Acho que estou numa situação favorável desde o momento que me propus a escolher um lado da moeda, e já entrei em contato com muitas coisas e com muitas pessoas que podem me ajudar nessa caminhada. Agora só falta arrumar a mochila e partir.

Tinha um tempo que eu não ia à praia

As últimas semanas tem sido bem estranhas e atípicas para mim, e eu senti que precisava contar sobre isso aqui no blog. Já inicio dizendo que esse vai ser um post mais pessoal, mais leve e menos polêmico. Não vou falar de conjuntura política (apesar de estarmos passando por uma bem bizarra nesse país) e nem de problemas complexos. Pretendo aqui dizer do disco e da filosofia de vida que está rodeando meus pensamentos nos últimos dias (e que eu queria muito que continuassem comigo) e está me fazendo ver a vida com outros olhos.

Há quem já conheça Cícero Rosa Lins, inclusive há quem tenha asco ou aversão às suas obras e diga que parece uma versão degenerada de Los Hermanos. A esses, encarecidamente peço que deem mais uma chance para ele ou então deem uma chance para o que vou dizer aqui e que envolve o terceiro – e até o momento, último – álbum dele. Enfim, espero que você aí do outro lado goste do texto e da reflexão que quero trazer.

Quando conheci as músicas do Cícero, por volta de 2013 ou 2014, eu estava num momento meio bizarro de fim de adolescência, onde eu ainda queria fortalecer minha identidade e individualidade, ainda estava desenvolvendo meus ideais e ainda tinha aquela mania de querer ser o diferentão. Essas canções vieram no mesmo momento que as do Silva, do Vespas Mandarinas e da Clarice Falcão. Eu queria começar a escutar algo brasileiro, algo que me fizesse ter orgulho daqui e parar de achar que tudo no exterior é melhor, sabe? Bom, funcionou e eu fiquei apaixonado pelo primeiro álbum (mas não muito afeiçoado pelo segundo), achei o seu arranjo musical simplesmente encantador e as músicas tinham o poder de me mergulhar em um mundinho só meu. Até hoje, as obras do Cícero causam essa ressonância que pouquíssimas outras causam na minha cabeça.

O tempo passou, eu entrei para a faculdade em 2015 e ouvi o terceiro álbum recém-lançado e disponibilizado para download pelo próprio autor no seu site. Lembro que também não me tornei um fã de cara, e demorou para eu começar a gostar de algumas músicas do “A Praia”. Foi então que, nesse mês, eu decidi ouvir ele novamente e, para minha surpresa, tudo mudou.

Foi já nesse ano que eu comecei a perceber a real intensidade das letras do Cícero, seja as que eu já tinha carinho grande ou mesmo as que eu não curtia muito. E, depois que eu comecei a gostar do “Sábado” (uma mudança também repentina de reação, ainda não entendo porque isso aconteceu), foi a vez de gostar do seu sucessor. Acho que o momento pelo qual a minha vida passa agora, além do próprio amadurecimento pessoal, favoreceu bastante para essa nova reação, porque fez com que essas músicas praticamente conversassem comigo e deixassem bem explícito: “Victor, é isso”.

Eu demoro muito para chegar no assunto central, cara. Acho que é uma marca dos meus textos (culpa da minha recorrente prolixidade), juntamente com os advérbios de modo e os apostos carregados de vírgulas. Fazer o que, né? Quem chegou até aqui: parabéns, viu.

“Mas o que tem de tão legal nesse ‘A Praia’, migo?”, você poderia me perguntar. Bom, em linhas gerais, e (é importante frisar) de acordo com a minha interpretação e leitura emocional da obra, esse disco fala sobre: aceitação, casualidades, amor, o urbano, efemeridades, paz e harmonia interior. É um disco que é tão certeiro e intenso nas suas letras, mas que passa uma energia tão boa, que parece ser uma ensaio lotado de ironia. Só que para mim, lá no fundo, ele não é.

“A Praia” possui referências à vida do próprio Cícero, como relações às cidades de Rio de Janeiro e São Paulo (antiga e atual morada dele, respectivamente) e à consequências da mudança dele para a famosa terra da garoa. Esse disco também faz referência ao anterior, como em “O Bobo” e em “Frevo por Acaso Nº2”. Mesmo assim, eu irei me conter apenas à uma reflexão do disco por ele mesmo, e para um plano um pouco mais dissociado do autor em si (se é que isso seja possível).

Na primeira parte do disco, mais especificamente em “Camomila”, uma energia boa e bem tranquila já mostra para o que veio:

“Nada vai mudar em vão

Nada vai e ponto

Todo desconforto, toda solidão”

Saber que toda mudança – ou então, tudo mesmo – acontece por um motivo, e que até as coisas ruins te ensinam alguma coisa, foi um pensamento que me guiou bastante até hoje e que eu sempre disse para outras pessoas. Porém, quando essa música diz isso com essa naturalidade toda, a mensagem passa a ganhar uma outra forma e começa a se tornar uma espécie de conselho daquela pessoa que tanto confiamos e admiramos. Então,  por mais que a gente tanto fale coisas desse tipo (“ah, não se preocupa, nada acontece por acaso”), quando paramos para refletir com essa música tudo passa a ser mais sólido, porque a gente abraçou e internalizou o conselho de uma maneira singular.

A mesma música termina com uma frase que vai se repetindo (característica presente em muitas obras do Ciço), de forma bem tranquila:

“Só um pouco de paz pra levar

Pro dia passar bem”

Eu me considero uma pessoa instável e impermanente, em muitos sentidos. Durante muito tempo da minha vida, eu tive crises profundas e oscilações de humor frequentes. No início desse texto, eu disse que ando tendo semanas bem atípicas porque essas coisas passaram a quase inexistir, e um dos motivos para isso foi a paz interior que eu atualmente vivencio.

E agora eu faço a seguinte pergunta: quando foi a última vez que você viveu a vida com mais paz, com mais tranquilidade? Com propriedade, posso finalmente dizer que quando a gente encara tudo à nossa volta com mais paz interior, parece que nada nos abala, e isso faz o dia passar bem. Eu ainda não sei muito bem como eu consegui adquirir essa paz (estou ainda a especular sobre), porque continuo com meus problemas e passo por umas situações ainda complicadas. Só sei que agora respondo a tudo isso de forma diferente e não mais autodestrutiva. Torço para que essa energia continue comigo.

A faixa que vem após essa, chamada “De Passagem”, conta a história de uma pessoa que encontrou uma mulher, por quem se apaixonou:

“Na onda leve da brisa do dia

Na onda longa do trem

Na brisa leve da vida do dia

Eu encontrei o meu bem

Não era fogo nem alegoria

Não era fuga também

Não era medo da melancolia

Era o dia de bem”

É curioso pensar que esse encontro não pareceu ser – ao meu ver – muito esperado (parece que aconteceu bem por acaso mesmo), e inclusive o sentimento que surgiu na pessoa não partiu de um esforço dela, foi bastante espontâneo. O sentimento só apareceu. Por si só, isso já faz pensar no sentimento que une as pessoas, que só germina quando permitimos a ele mesmo germinar. O amor – ou como queira chamar – não se força, não se empurra, não se inventa. Ele apenas aparece.

Aparentemente, “De Passagem” é só mais uma história de amor, mas na minha interpretação isso toma proporções reflexivas enormes quando a música está terminando. Em mais uma frase que se repete e ecoa, quase como um bilhete que é levado pelo vento.

“E tudo foi desbotando até desaparecer”

O que me parece é que o relacionamento que as duas pessoas podem ter tido chegou ao fim. O mesmo tom tranquilo e despreocupado soa irônico, porque afinal nunca estamos prontos para esses fins (assim como outros fins), nunca interiorizamos que praticamente tudo é efêmero. Com essa música, a gente pode passar a se sentir mais ameno quando percebemos o fim das coisas, e percebemos que tudo está de passagem. Depois da calmante “Camomila”, temos uma mensagem dessa sendo passada junto ao som de vários instrumentos nordestinos.

Já na parte final do disco encontramos “Albatroz”, que trata de um pôr-do-sol em um espaço urbano não especificado (pode ser o Rio de Janeiro – até pelo próprio nome da canção – mas também São Paulo ou qualquer outra cidade):

“Entre condomínios e domicílios empoleirados

Entre utensílios, inutensílios empoeirados

Entre o desatino, o desaviso, o desamparado

O homem antigo, o homem aflito e o homem amargo

O dia alaranjou”

É uma série de elementos que podem ser observados no espaço e na sociedade urbana. Para alguém que estuda Geografia – e ama Geografia Urbana – como eu, essa música é, além de poética, altamente geográfica. Em poucos versos, “Albatroz” já pode nos dizer que o espaço urbano: tende a verticalizar; é a própria expressão da desigualdade; e contém o desperdício em si através de diversos inutensílios empoeirados.

Paralelamente ao astral que essa música passa, me pego a pensar uma coisa. É bastante incômodo – através dessa música – ver que o espaço urbano, onde muitas pessoas vivem em conjunto e interagem o tempo todo, é cercado de sofrimento. Mas afinal de contas, quem são esses homens aflitos, esses homens amargos? Deixo a pergunta para vocês. Ah, é claro que esses homens não são exclusivos do espaço urbano, mas sabemos que a maioria da população mundial encontra-se atualmente nas cidades.

O álbum chega ao fim com uma faixa de nome bastante simbólico, chamada “Terminal Alvorada”. Depois de toda essa tranquilidade que é passada ao longo do disco, parece acontecer um diálogo curioso:

“Ei, como vai?

Tudo bem, acredito

O dia passa bem aqui

Dia vai, dia vem

Não duvido

E tudo o que vier faz parte”

Essa postura de resignação, acompanhada de muita tranquilidade e harmonia (que é sustentada pela própria melodia), parece ser a soma de todas as experiências adquiridas ao longo dessa obra magnífica e edificante. O tempo passa, o que acontecer vai acontecer e vai estar tudo bem, sabe? O dia passa bem porque adquirimos a paz das canções anteriores e a síntese é essa canção.

Como uma marca final, como uma frase de despedida que também ecoa e parece amarrar todo o aprendizado adquirido com uma fita da cor do mar, “Terminal Alvorada” deixa o seguinte verso:

“Faz um tempo eu não sei o que é saudade”

A saudade é um sentimento engraçado, porque surge quando nos apegamos a algo ou alguém do passado, a ponto de nos sentirmos melancólicos. Porém, quando você passa a observar a vida com mais harmonia e paz, quando você entende que tudo acontece por um motivo e tudo bem se as coisas forem desbotando até desaparecer, você para de se apegar a algo que passou. Você passa a entender que a vida continua, e tudo o que vier faz parte.

“A Praia” então termina, dizendo tudo o que queria dizer. É um álbum que possui melodias maravilhosas e todas as faixas parecem conversar entre si (apesar de eu não tratar de todas aqui). Além disso, ele é repleto de simbolismos, e parece não ter nenhum elemento vazio ou desconexo. E mais do que um disco do Cícero, é uma grande fonte de aprendizado e serenidade.

Cícero, obrigado. Eu me tornei seu fã de verdade.

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Um disco que dialoga até com alguém que não é muito fã do mar

 

Origem da minha reflexão:

Algumas entrevistas do Cícero, como essa e essa

O próprio “A Praia”, que atualmente não se encontra mais gratuito no site oficial do artista e nem no Spotify (o que é triste), mas que ainda é encontrado na internet

Sou apenas um rapaz latino-americano

Tem pipocado já há um tempo algumas notícias sobre a Venezuela e o caos social, econômico e – por conseguinte – político no país. Várias notícias alarmantes sobre a falta de papel higiênico (que desde os meus áureos dezessete anos costumavam falar) e outros itens de necessidades básicas nas prateleiras dos mercados de Caracas, artigos sobre a polêmica atitude de Nicolás Maduro e sobre a repressão com a qual ele estava agindo nas manifestações contrárias ao seu governo. Pulgas atrás da minha orelha ainda não tinham surgido, mas eu já começava a me perguntar: o que está acontecendo no nosso vizinho bolivariano?

Depois de uma conversa no em que eu percebi que não sabia opinar sobre o assunto, pensei que era o momento de eu começar a procurar informações. Quando comecei a encontrar algumas coisas, os questionamentos começaram a surgir, minha pesquisa foi se aprofundando e eu percebi que esse era um bom tema para tratar aqui. Por que não falar da atual situação venezuelana, o assunto do momento?

Antes de tudo, queria dizer que depois que li e ouvi diversas coisas acerca do tema, um descontentamento surgiu lá no fundo do peito, porque vejo que muitas coisas estão sendo faladas sem a menor reflexão, inclusive por pessoas que eu gosto muito. Está rolando uma disseminação de senso comum absurda, com uma reprodução daquele discurso midiático fácil e – o que me incomoda muito – palatável para muitos. O mesmo discurso midiático que põe as medidas de Temer como “necessárias”, o mesmo discurso midiático que construiu uma imagem bizarra do Partido dos Trabalhadores.

É crucial que, para diversos assuntos e praticamente para qualquer assunto que envolva algum recorte espacial (a galera da Geografia deve saber bem o que eu estou falando), enxerguemos todo o desenrolar histórico dos acontecimentos. O que quero dizer é que não podemos enxergar nenhum ponto no mundo dissociado de seu passado, muito menos de sua localização e entorno, como se ele fosse uma bolha estática e isolada no espaço-tempo. Ainda mais quando estamos falando de América Latina, onde encontramos o assunto do nosso post e até (pasmem!) nós mesmos.

Logo, precisamos levar em consideração aqui (e em outros assuntos também) a evolução diferencial dos espaços, que nosso amigo Milton Santos tratou tão bem em suas obras. Precisamos também perceber a criação e transformação dos diversos agentes que atuam nesse espaço, os fatores históricos, locacionais e regionais, além das redes e interrelações – dos mais diversos tipos – que esse espaço constrói, mantém, dissolve e reconstrói ao longo do tempo (dentro de si ou não). Parece complicado, mas é importantíssimo perceber esses elementos, para que a nossa visão não se torne opaca e fechada demais. E quando isso acontece, começamos a pensar que esses discursos da televisão são a mais coesa análise da realidade. Quando na verdade, estão longe de ser.

Todos os Estados que compõem hoje o continente americano foram colônias de algum país europeu, com exceção da Guiana Francesa… que até hoje é uma colônia. Isso quer dizer que todos nós passamos por processos de exploração e subjugação de uma lógica social exterior à nossa por significativo tempo. Porém, a partir do século XVIII (1776), essa situação começa a mudar, e os processos de independência começam a fervilhar o Novo Mundo. Estados Unidos é o primeiro país a tornar-se independente, e acredito que, de imediato, suas reais intenções em relação à sua política internacional não foram tão explícitas. 49 anos se passaram, e um discurso presidencial cunhou a famosa Doutrina Monroe (quem lembra da frase “América para os americanos”?).

A partir daí, os estadunidenses se colocaram sempre numa posição de supremacia sobre os outros países. Essa imposição de soberania aconteceu com praticamente todos os países, mas é claro que a América sofreria de forma mais contundente essa influência neocolonialista. É curioso – e levemente assustador – como, ao longo dos anos, esse abuso se deu de diversas maneiras: políticas mais explícitas como o Corolário Roosevelt no início do século XX, e a Operação Condor; mas também táticas mais sutis como a Política de Boa Vizinhança em meados do século XX, e o american way of life durante a Guerra Fria. Os ianques impõem seu poder até quando dizem sua nacionalidade, a partir do momento que dizem que são americanos (eu abomino essa forma de dizer a nacionalidade dos estadunidenses), praticamente declarando que o continente é deles.

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Charge relacionada à política estadunidense no Caribe, com referências ao Big Stick – William Allen Rogers (1904)

Nesse contexto de subjugação velada (ou nem tanto), os países da América Latina – que já possuem um histórico de desigualdade decorrente das suas lógicas de escravidão e exploração – foram obrigados a ter uma ligação (muitas vezes assimétrica) com o seu vizinho do norte. Ao longo dos anos, com governos latino-americanos que se posicionavam a favor dessa lógica, essa estratégia se manteve. É importante dizer que quando algum governo se posicionava contra essa lógica, e caminhava para algo que era prejudicial aos Estados Unidos, alguma coisa acontecia. Coisas que poderiam envolver golpes militares, por exemplo (Paraguai, Guatemala, Argentina, Brasil, Bolívia, República Dominicana, Peru, Chile e Uruguai sabem bem disso).

“Victor, mas e a Venezuela?”, você pode estar me perguntando. Bom, a Venezuela passou boa parte do século XX com governos eleitos de forma indireta e alguns golpes de Estado, mas principalmente construiu toda a sua história com lideranças brancas e da elite (os presidentes mais pareciam europeus, numa sociedade majoritariamente indígena). É importante frisar o caráter elitista e branco dos governos para provar que, assim como nós, o povo venezuelano nunca pôde participar da política. Em 1958, a segunda ditadura (!) se encerra e acontecem eleições diretas, com a entrada de Rómulo Betancourt. Era o governo de mais um cara branco, porém importante para a história. Foi em seu governo que a Venezuela entraria como membro fundador da OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

Para quem não sabe, a Venezuela possui em sua geomorfologia uma bacia sedimentar, a bacia do Orinoco, na qual está presente um dos maiores reservatórios de petróleo bruto do mundo. Essa formação de hidrocarbonetos significativa fez com que um país da América Latina se reunisse e se posicionasse – no mesmo nível – com os grandes países arábicos. Um país que produz quantidades massivas de petróleo praticamente do lado dos Estados Unidos. Isso já é algo a se pensar.

Entre 1958 e 1998, houve uma surreal alternância bipartidária entre os governos venezuelanos, conhecido como o Pacto de Puntofijo. Essa aliança, disfarçada de uma política democrática (vale lembrar que desse pacto, o Partido Comunista foi riscado), fortaleceu o caráter elitista da política nacional. Em 1989, depois da imposição de um pacote de medidas neoliberais do presidente Carlos Andrés Perez, houve uma manifestação popular generalizada de grandes proporções. O episódio conhecido como Caracazo, que ocasionou dezenas de mortos, mostrou as feridas de uma sociedade historicamente desigual, e uma figura que se tornaria histórica já se mostrava presente: Hugo Chávez.

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Repressão do Estado no Caracazo (1989)

Desde 1982, através do chamado MBR-200, o militar Hugo Chávez mostrou seu descontentamento com as políticas antipopulares dos governos e com a influência opressora dos Estados Unidos. Inspirado em Simón Bolívar, sua ideologia se desenvolveu no que ele denominou bolivarianismo, que apesar de controverso (Bolívar era uma figura bastante problemática) ganhou peso ao longo dos anos. Em 1992, e em consequências do próprio Caracaço, ele tenta executar um golpe de Estado que acaba falhando. Assumindo a culpa pelo golpe e pelas mortes, Chávez é preso e ganha notoriedade pela população venezuelana, que passa a considerá-lo uma figura importante.

Anos depois, Hugo Chávez reaparece, e nas eleições de 1998 torna-se o novo presidente da Venezuela. Nascido em uma cidade do interior da Venezuela e descendente de indígenas, Chávez era completamente diferente dos presidentes anteriores, e sua vitória foi para além da pura representação ideológica, sendo também racial. Para além disso, as ações dos seus mandatos mostraram para o povo que eles poderiam compor a política, a partir do momento que todas as coisas passavam pelo crivo da população, criando um modelo novo de política (constituído de quatro poderes).

Voltemos à escala internacional. Pensemos num governo eleito que governa para o povo e que possui ideais contrários aos do Estados Unidos. Pensemos que é o governo de um país que produz altas quantidades de petróleo e ainda é membro da OPEP. Além disso, Hugo Chávez ampliou relações com Cuba, o vizinho de governo socialista, e nacionalizou a maior parte do petróleo. Obviamente isso é ameaçador aos estadunidenses, e eles não vão deixar isso passar. Essa resposta ao governo de Chávez se deu de diversas formas, principalmente quando diversos discursos falaciosos foram construídos para derrubar o presidente.

Voltemos à escala nacional e regional. É claro que as elites do país também surgem como opositoras do governo (os empresários estadunidenses não são os únicos que querem derrubar o governo chavista), afinal elas governavam antes sem nenhuma dificuldade. E as elites venezuelanas também agem, das suas maneiras. Três anos depois do início da presidência de Hugo Chávez, por exemplo, aconteceu o golpe petrolero de 2002, onde houve uma tentativa de parar a produção petrolífera por parte da oposição. Se essas atitudes são feitas em conjunto com forças externas, eu sinceramente não sei (e também não quero ficar criando teorias da conspiração nesse post, não mesmo).

A produção de petróleo no governo de Hugo Chávez se torna importantíssima, principalmente devido aos benefícios que trazia. Com a extração petrolífera, Chávez focalizou altos investimentos nas áreas da saúde e da educação, e também retribuiu boa parte dos ganhos – de forma direta – à população. Quando a situação ia mal, no que se referia à produtos básicos, Chávez comprava esses produtos com o dinheiro que ele gerava com essa produção significativa de petróleo.

Porém, alguns anos depois surgem as primeiras crises. Em 2008, a grande crise do capital financeiro gerou consequências no mundo todo. As crises do petróleo também fizeram o preço do barril cair pela metade, e num país que a dependência do petróleo passava dos 90%, isso iria reverberar fortemente. Em 2013, Hugo Chávez morre devido a um câncer, dando lugar ao seu vice, o agora famoso Nicolás Maduro.

O quadro no país se tornou generalizado. As elites estavam há muito tempo insatisfeitas, o povo havia perdido o presidente que tanto apoiavam, e agora teriam que lidar com uma crise econômica e um liderante nada carismático. O aumento da inflação e a escassez de alimentos devido às crises anteriormente citadas aumentaram a insatisfação da população e geraram altos índices de violência. A oposição ganhou voz no meio disso tudo e se constituiu como maioria no poder Legislativo, diminuindo de forma intensa a governabilidade do presidente. E a oposição ainda tem os Estados Unidos ao seu lado. Maduro se encontra hoje contra muitas coisas ao mesmo tempo, e sua atitude é de pura resistência, principalmente aos golpes parlamentares que aqui no Brasil derrubaram Dilma (inclusive as semelhanças com o Brasil são absurdas).

O embate político está sendo intenso, e o conflito se expande a outras esferas, como a econômica. É certo que existe escassez de itens nos mercados, mas ainda existem medidas de reposição por parte do presidente. Porém, o que anda acontecendo é um tipo de boicote por parte de algumas empresas, que deixam de produzir ou deixam de vender algum tipo de artigo, gerando uma verdadeira guerra produtiva. Esse processo mostra-se explícito quando, num mercado, não há leite e há queijo. Algumas empresas também estão impedindo os seus funcionários de trabalhar, fechando suas portas e dizendo que estão “entrando em greve”, apropriando-se de uma ferramenta que é popular.

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Charge representando Maduro e seus principais adversários – Latuff (2013)

Os opositores também apropriam-se do discurso da insatisfação popular para depor um presidente que foi eleito de forma legítima, pondo em risco todo um sistema que é, de certa forma, democrático. Um grupo dissemina esse discurso, de forma intencional, e uma camada da população acaba comprando a ideia, indo às ruas para pedir a saída de Maduro. Qualquer semelhança com o Brasil nos últimos anos não é mera coincidência.

Portanto, o que acontece agora na Venezuela é esse embate político, que se mostra cada dia mais forte. E a gente que está de fora, só observa… Mas o pior de estar de fora é que não podemos nunca saber o que está acontecendo de fato, porque o que temos são versões de outras pessoas. Resta saber em quem acreditar, em quem confiar.

O que realmente acho disso tudo é que o governo chavista teve seus erros, assim como o de Maduro. Porém, precisamos ser mais sérios nas nossas abordagens, e tomar consciência do que realmente soluciona o problema. Com certeza, uma das soluções não envolve o incentivo a um golpe de Estado, e muito menos comprando um discurso sem embasamentos. Para os amigos a quem possuo afinidade política, defender a deposição do atual presidente da Venezuela – para mim – é defender a deposição da Dilma aqui (e nós sabemos que foi golpe).

Criticar as políticas econômicas, principalmente as que envolvem o aumento da dependência do petróleo nacional e as falhas tentativas de controle da inflação, é super válida. Questionar se as políticas chavistas foram populistas ou populares também é válido. Todavia, esses questionamentos e críticas precisam ser feitos de forma coerente, construtiva e embasada.

Bom, o que realmente quero fazer aqui é mostrar uma versão mais profunda das coisas, principalmente com o elemento histórico que eu considero tão importante numa análise dessas, e para além do discurso – intencionalmente vazio e superficial. Mas mesmo assim, digo: sinta-se livre para questionar.

Sempre sinta-se livre para questionar. Tudo.

Origem da minha reflexão:

Uma videoaula sobre o assunto (Sim, uma videoaula!)

Alguns vídeos de alguns canais interessantes, como esse e esse

Artigos que eu discordo um pouco, como esse e esse

 

Sobrevivendo no Inferno

Há uns quatro ou cinco dias atrás, eu estava procurando documentários, filmes, séries que me fizessem refletir, que me enriquecessem de uma forma significativa como ser humano. Cheguei então a um tema que me prendeu durante um bom tempo, e eu comecei a procurar coisas relacionadas a esse assunto de uma forma quase compulsiva, até porque muita coisa contribuía para que eu escrevesse sobre isso. Bom, cá estou eu. O tema de hoje é seríssimo. Precisamos falar sobre o sistema prisional e sobre a questão do encarceramento no Brasil.

Quero dizer primeiramente que, nesse momento, há muita informação na minha cabeça circulando de forma praticamente caótica, porque – entre outros motivos – esse é um tema complexo e muito delicado, que tomou muito da minha cabeça, do meu estômago e do meu coração. Mesmo assim, eu vou tentar escrever algo minimamente organizado, estruturado, coeso e racional. Também quero dizer que eu não estou aqui na posição do arauto da evolução humana, que traz as respostas para a sociedade… longe disso. Bom, vamos lá.

Como eu disse anteriormente, muitas coisas contribuíram para eu escrever sobre a questão prisional. Muitos não mais se lembram, mas no início do mês de janeiro houveram duas grandes chacinas no país, uma no Amazonas e outra em Roraima. Por mais que os motivos dos eventos não envolverem diretamente o que eu pretendo tratar nesse post, o fato é que a crise no sistema carcerário brasileiro se mostrou pública novamente. E quando isso acontece, começamos a ver discursos dos mais variados tons, começando a envolver o segundo gatilho para eu decidir falar sobre o assunto. Há dois dias atrás, descobri que Kim Kataguiri participará de uma palestra organizada pelo MP-RJ, intitulada “Segurança Pública como Direito Fundamental”. Eu não tenho nada contra posicionamentos que divergem dos meus, mas a partir do momento que esses posicionamentos se sustentam em bases coerentes. Não quero me estender nisso, mas além de ter um discurso extremamente problemático, alguém como ele não pode ser quem lidera um debate sério e complicado como esse.

Passamos atualmente por uma situação muito difícil nos diversos presídios do Brasil, porém a questão prisional é muito antiga e atravessa as fronteiras nacionais. Um problema como esse envolveu – e ainda envolve – países no mundo todo há séculos. Desde muito tempo atrás, os seres humanos procuraram soluções para quem fosse contra as ditas regras sociais. E, com palavras do ex-desembargador Amilton Bueno de Carvalho, “causa um profundo mal-estar, em pleno século XXI, nós (ainda) estarmos discutindo o medieval prisional”. É complicado perceber que a forma como lidamos com essas pessoas que infringem leis ainda é bastante arcaica. É absurdo como ainda resolvemos questões de uma forma que traz mais problemas do que soluções, e é mais absurdo ainda ver que o nosso país – ao contrário de muitos outros – intensifica essa política de criminalizações e prisões.

É visível que essa estratégia é falha e inútil, porque os crimes não diminuem com o aumento das prisões e as reincidências são frequentes. Além disso, nesse encarceramento em massa, que em 2014 somaram mais de 710 mil pessoas, estão incluídas pessoas que roubaram um shampoo e pessoas que traficavam crack e roubavam bancos. Numa população que, em termos absolutos, é a terceira maior do mundo, esses dois tipos de presos são colocados no mesmo saco.

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Dentro dessa população carcerária, ainda existem as pessoas que sequer cometeram delitos. Não sejamos ingênuos ao pensar que existe um tratamento igual entre brancos e pretos, entre pobres e ricos. O julgamento se dá pela pele e pela classe, e dependendo da sua origem social e/ou racial você acaba sendo empurrado para dentro das grades. Só por isso. E uma vez lá dentro, ninguém mais olha para você.

Para contextualizar e mostrar um pouco da amplitude do problema, vamos imaginar que um homem foi preso por tentativa de furto de três óleos. Esse cara já nota, em pouco tempo, que existe um esforço externo para que ele sofra fisicamente e psicologicamente dentro daquele espaço, porque ali ele é observado vinte e quatro horas por dia, come comida estragada, divide uma cela com dezenas de outras pessoas. Esse preso percebe que existem pessoas que ficam doentes e não são atendidas, porque raramente alguém consegue atendimento na prisão (e muitos nem querem que isso aconteça, afinal “são criminosos”). Meses depois, ele se dá conta que vai ficar mais tempo do que imaginaria, por causa de um julgamento do fiscal que o considerou “antissocial, egocêntrico e com comportamentos agressivos”. Não esqueçamos que ele está num presídio, e está com pessoas que sabem atirar. Três ou quatro anos dentro desse inferno, esse homem já percebe que a justiça não existe para ele, que ele é visto e tratado como lixo, que todo o sistema está contra ele. E ele agora sabe atirar.

Não estou aqui para dizer que a vida de alguém que cometeu um delito seja a de um príncipe, com TV a cabo e acesso à internet. Mas a gente precisa entender que não existe diferença nenhuma entre nós, que estamos aqui gozando dessa tal liberdade, e eles, que estão dentro desses ambientes. Precisamos entender que nada justifica um tratamento como esse, e que tal espaço não reabilita ninguém. Com a palavra de alguns presos:

“Isso aqui não reeduca ninguém. Pelo contrário, faz a pessoa ficar mais traumatizada, com mais ódio, com mais raiva da justiça, por ser lenta demais”

“É muito mais humano dar um tiro na cabeça”

“Coloca um cavalo aqui (…), o único que suporta é o ser humano”.

Além disso, é importante tratar dessa tal justiça. Como eu disse, pessoas são presas sem provas concretas. Sem provas concretas. Muitas vezes, pautadas em meras presunções, achismos que partem de um senso comum grotesco ou de uma repressão histórica. Com isso, vidas são destruídas. E eu não estou exagerando, porque esses encarceramentos não afetam só uma pessoa. Eles destroem famílias por completo, desestruturam lares e causam cicatrizes sociais graves. Precisamos questionar que justiça é essa que põe certos grupos dentro da cadeia e outros grupos não. Precisamos questionar atitudes que são explicitamente injustas e opressoras.

Precisamos também, para além de tudo isso e talvez com um pouco de abstração, pensar como lidar com alguém que cometeu um crime. Aprisionar uma pessoa que fez algo considerado errado é resolver de fato o problema? Pergunto isso porque, entre outras coisas a refletir, o crime já foi feito. É necessário refletir sobre essa ideologia judaico-cristã da prática da penitência (por isso o nome penitenciária), de pagar pecado isolado do mundo. Por isso, as perguntas que devem ser feitas são: como lidar com essas pessoas que cometem erros? É preciso deixar essas pessoas reclusas? Se for realmente necessário, como fazer isso da melhor forma?

A questão prisional do país é muito mais complexa do que parece, e prender mais não soluciona, porque não estamos indo na origem do problema. Não estamos combatendo o que de fato gera a criminalidade. Essa violência do criminoso, tão espetacularizada nas diversas mídias, não é o início do problema. Tratar ela como o início de tudo é ser simplista, e trabalhar apenas com o senso comum que simplifica tudo. É arriscadíssimo tratar desse caso de forma simplista e superficial, porque isso esconde o debate político e com essa intensa criminalização da sociedade, a política perde seu significado.

Para ir na origem do problema, precisamos voltar aos tempos mais pretéritos da sociedade brasileira. Como o padre Valdir Silveira, da Pastoral Carcerária, bem disse: “não existe crime individual, todo crime é social”. Ir ao passado da sociedade brasileira, é entender que o país se construiu em cima de muita desigualdade, e que esses crimes só são a resposta de tudo isso. Estamos inundados de injustiças históricas que só se perpetuam, dia após dia. Para resolver a questão prisional no Brasil, não podemos esquecer disso. E é muito incômodo perceber que parcelas da sociedade, que sempre detiveram privilégios, não aceitam o ajuste dessas desigualdades.

Bom, um tema como esse dá muito pano para manga, até porque envolve temas como as políticas de guerra às drogas, o genocídio da população negra, o preconceito com ex-presidiários, a criminalização da pobreza e até questões mais filosóficas, como o conceito de liberdade, dignidade ou justiça. Tentei falar sobre o que consegui digerir até agora. Pode ser que, em um outro momento, eu acabe escrevendo mais sobre isso. Portanto, nem de longe eu esgoto o assunto por aqui.

Por último, eu só digo mais uma coisa. Se a sociedade continuar acreditando que essa tática pela qual vem agindo gera resultados positivos… ela vai estar cavando a própria cova. Por dois motivos: essa sociedade vai passar a desconhecer o significado dela mesma; e porque uma hora se voltará contra a sociedade aqueles que ela tanto quis eliminar. E eu sinceramente acho que isso já está prestes a acontecer.

“As grades nunca vão prender nossos pensamentos.” – Sobreviventes do Rap – SP

 

Origem da minha reflexão:

Justiça (2004) [Documentário – Disponível no Youtube]

O Prisioneiro da Grade de Ferro (2003) [Documentário – Disponível no Youtube]

Sem Pena (2014) [Documentário – Disponível no Youtube]

Pena de Prisão – Um Olhar Crítico Libertário (2015) [Entrevista – Disponível no Youtube]

Algumas notícias do El País, um rap do Racionais