Lide apenas com o que você pode lidar

Imagine que uma pessoa precisa levar alguns pratos de um cômodo a outro. Ela decide pegar vários, por volta de dez, e ir equilibrando-os. A princípio, ela está tranquila, consegue fazer isso de forma calma e até exemplar. Depois de alguns minutos, essa pessoa começa a se desequilibrar, fazendo os pratos em sua mão tremularem de forma progressiva. Até que, em um determinado momento, a situação chega a um ponto crítico, em que certamente os pratos irão cair no chão se nada for feito. Imagine o estrago.

Duas semanas se passaram desde a última publicação aqui. Peço desculpas a quem lê meus textos, mas também a mim. Entre tudo que faço, é notável que não coloquei o blog como prioridade. E sinto que deveria, pois gosto de escrever aqui e tudo mais, e porque sei que o que faço aqui é importante. Bom, duas semanas se passaram desde a última publicação aqui porque, basicamente, essa pessoa com os pratos sou eu.

A primeira coisa que me vem à mente quando penso nessa problemática dos pratos envolve o fato de que, por muito tempo, um dos aspectos principais da minha personalidade foi o que batizei de Complexo de Atlas. Na mitologia greco-romana, Atlas era o titã que, por ordens de Zeus, passou a ter a função de – sozinho – sustentar a abóbada celeste sobre seus ombros. Isso por si só já explica o que eu quero dizer com esse forte aspecto da minha personalidade.

atlas_farnese
Pintura do titã Atlas carregando os céus (Autor Desconhecido)

Além disso, devido a um perfeccionismo que, por vezes se mostrava tóxico a mim, sempre senti que deveria executar da melhor forma tudo em que me envolvia. Nunca foi aceitável para mim ser medíocre, ter um baixo desempenho, ou apenas ser “mais ou menos” no que me colocava para fazer. Talvez isso se deva pelo fato de que sempre exigiram muito de mim, não sei. Só sei que foi a causa de muitos problemas, já que por causa disso eu não sabia lidar com críticas (que sempre me deixavam muito triste ou muito irritado). Resumo da ópera: durante toda a minha vida, tentei segurar o mundo com a mão, fazendo tudo de uma forma impecável. Pense no estrago que essas coisas poderiam gerar.

E foi um estrago daqueles. Eu parecia estar sempre carregando uma tonelada de culpa e – assim como Atlas – sofria com um peso nos meus ombros. E as crises demoraram muito a diminuir de frequência e intensidade. Demorou muito para esses aspectos da minha personalidade se enfraquecerem, e eu começar a ficar mais tranquilo em relação ao meu desempenho. É curioso perceber que foi logo no espaço acadêmico que isso aconteceu, já que este é um meio muito nocivo que muitas vezes cobra mais do que você pode oferecer (é provável que esse seja um tema para um texto futuro).

Mesmo assim, por mais que eu tenha começado a desencanar do meu perfeccionismo, ainda pecava em me envolver em muitas coisas. Ainda teimava em carregar muitos pratos comigo. Como também passei a me envolver com militância, isso se tornou ainda mais grave, uma vez que eram coletivos (no plural mesmo) de um lado e gestão do curso de outro, eram comissões de um lado e grupos de mobilização de outro. O mundo ainda tá todo errado e tem mudança demais para ser feita. E eu sentia que tinha que participar em várias frentes, porque afinal, ainda falta muito, sabe?

Bom, o tempo foi passado e fui vendo que tudo estava se tornando insustentável. Por mais que eu tivesse diminuído a minha exigência própria e tivesse atenuado esse perfeccionismo, não estava conseguindo acompanhar tudo que acontecia. Comecei a me desequilibrar, entrar num estado de exaustão bizarro, e me pôr em xeque. Depois de perceber que não estava tendo um desempenho sequer satisfatório nas dezenas de espaços em que me envolvi (pois simplesmente era impossível para qualquer ser humano), resolvi parar de equilibrar dezenas de pratos e seguir num processo de carregar apenas alguns comigo. Até porque, é melhor um prato inteiro na mão do que dois quebrados no chão (uma releitura dessas, bicho).

Há alguns dias atrás, comecei a aprimorar isso, e melhorar a forma como eu lidava com as minhas responsabilidades. É um esforço diário, porque me apeguei a todos os espaços em que me coloquei presente. É também uma mudança profunda, que se relaciona com características sólidas do meu ser. Logo, sigo no processo de internalizar que é possível deixar os outros pratos para outras pessoas carregarem, e que em alguns momentos, elas até vão desempenhar essa função melhor do que eu. Também sigo me esforçando para acreditar que não precisamos ser os melhores no que nos colocamos para fazer, podemos tentar apenas ser melhores a cada dia. É muito mais saudável.

Ainda na mesma vibe do menos é mais, que venho tratando até com uma certa regularidade no blog, eu agora pensarei mais nos espaços que irei atuar, a fim de agir oferecendo o que posso oferecer, e não mais de uma maneira danosa. E apesar de ser um texto em primeira pessoa, trago a partir de mim uma reflexão que todos deveriam ter acerca do que podem fazer por si e pelos outros, afinal de contas, ninguém precisa estar em todos os espaços para a construção de um mundo melhor. E não tem nenhum problema nisso.

Essa discussão da impossibilidade de estar em todos os ambientes e agir visando a perfeição perpassa por um pensamento que devemos sempre carregar conosco, que apesar de óbvio pode nunca vir à tona: somos humanos, e não devemos esquecer disso. Apesar de sermos capazes de realizar feitos magníficos, todos nós sempre seremos limitados (principalmente pela nossa temporalidade e materialidade).

Portanto, não devemos esquecer que somos humanos. Não somos como titãs, como Atlas. E uma característica intrínseca do ser humano (eu poderia dizer que é uma das faces de sua essência) é a de – por mais paradoxal que pareça – pura imperfeição.

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