Por favor, pare (e se quiser, leia isso aqui)

O tempo anda muito corrido para mim, de verdade. O último texto que possuía material original (e não algum texto reciclado ou reformulado) tinha como imagem o coelho do filme de Alice no País das Maravilhas, só para vocês terem uma ideia da situação. Muitas coisas estão pipocando (a volta às aulas na UERJ já explica muita coisa), e estão gerando algumas coisas incômodas para mim.

Há algumas semanas mesmo, eu me peguei incapaz de acompanhar o ritmo de tudo e sinto que o blog acaba sofrendo por tabela. Preciso parar para respirar. Quando digo que o blog sofre por tabela, é porque ando perdendo o timing de temas dos textos. Ando tendo várias ideias e quase nenhum tempo e/ou inspiração para escrever, até que essas ideias começam a se tornar “obsoletas”. E isso me deixa muito impaciente. Preciso parar para respirar. Já não consegui postar ontem, e sigo na humildade – porém levemente triste – com esse texto como se nada tivesse acontecido e o atraso não tivesse existido.

Preciso

parar                                               para

respirar.

Em meados de agosto, vivenciei um momento de muita paz e tranquilidade, e quem me acompanha aqui sabe que teve até um post envolvendo o assunto maquiado de crítica musical. Com a entrada do mês de setembro isso começou a se perder, justamente quando eu voltei a conviver em sociedade. Claro que esse estresse também surgiu com as responsabilidades e deveres (pois é, sou uma pessoa ansiosa e muito perfeccionista) da vida, mas é engraçado perceber como o período de calmaria se deu quando eu estava apenas com a minha própria companhia.

Calma. Antes que você diga alguma coisa, não estou dizendo que todas as pessoas precisam viver completamente sozinhas, até porque somos seres sociais e acredito que o ininterrupto isolamento não nos faz bem. Mas a pergunta que trago aqui é: quando foi a última vez que você se permitiu estar com você e com mais ninguém? Quando foi a última vez que você se viu de frente contigo?

Bom, a tranquilidade que inundou minha vida se deu também devido a outros elementos. Além do fato de eu não estar tendo aulas, decidi imergir no budismo novamente (inclusive, quero muito falar desse assunto aqui). Mesmo assim, como disse, essas duas coisas caminham com o fato de que preferi trilhar minha vida apenas comigo. Passei um bom tempo em casa, lendo e vendo coisas que me faziam bem, e na maioria das vezes em que eu saía estava sozinho. Deixava meu celular num canto e passava o dia todo sem tocar nele, sem falar com ninguém. Comecei a meditar com regularidade e ouvia músicas que gostava demais.

Into-The-Wild-Wallpapers-24
Cena do filme Into The Wild (2008), do diretor Sean Penn

 

É engraçado pensar que algumas pessoas acharam que essa distância que eu estabeleci com o mundo aconteciam só com elas, e inclusive muitas dessas não ficaram nem um pouco felizes com esse meu momento. Tive que ler que estava sendo frio, distante e seco de propósito, e precisei me manter firme frente a algumas acusações meio sem nexo. Não culpo e nem fico triste com essas pessoas, realmente as entendo. Mas ainda assim, eu também entendo a necessidade deste afastamento, e infelizmente não posso fazer nada pelas pessoas que reclamaram tanto. Espero que entendam que o motivo disso não envolveu nada cruel ou banal. Pelo contrário.

Eu não era acostumado a esses momentos de solitude (essa é a palavra mais adequada) até os últimos meses, quando passei a experimentar ir a alguns lugares sozinhos. Desde então, me vi como a minha melhor companhia e decidi que precisaria tirar mais alguns momentos só para mim. Acredito que a gente teme dizer algo como “me vi como a minha melhor companhia” ou algo parecido, porque “soa egoísta”, mas acho que tal pensamento está longe de ser egoísta. Como em alguns textos que eu já li, dar mais atenção para você não é egoísmo, é autopreservação.

Outro motivo que fez com que eu decidisse passar dias sem ver ninguém, envolveu uma recente percepção minha. Notei que frequentemente sofria e tinha oscilações emocionais significativas por causa de influências externas, mas principalmente devido a incongruências internas. Calma que eu vou explicar.

Acredito que cada um de nós possui a capacidade de levar para dentro de si elementos do exterior, como o que vem de outras pessoas. Obviamente, cada pessoa absorve isso de certa forma e intensidade: pessoas que não se importam muito com o exterior absorvem pouco ou quase nada de fora, enquanto pessoas que vivem pelos outros (interprete como quiser) são influenciadas fortemente pelas outras pessoas. Eu me vi como parte desse segundo grupo. Comecei a me identificar como alguém que absorvia muitas coisas de outras pessoas, e esse contato extremo (até porque sempre fui muito social) estava me trazendo consequências ruins. Como disse a algumas pessoas, eu estava sendo praticamente uma esponja energética (há quem acredite nessas coisas).

As crises que vivenciei também vinham – ao meu ver – da forma como eu lidava com as coisas ao meu redor (daí a incongruência interna). Além de absorver muito do exterior e dar muita importância para tudo que vinha de fora, eu também não estava bem comigo mesmo, fazendo essas coisas ecoarem de uma forma muito ruim dentro de mim e gerando consequências terríveis. Eu estava ficando triste ou irritado com qualquer coisa, e encarava de peito aberto (e sem defesas) tudo que surgia. Eu ainda agia com muita ingenuidade e idealismo, ainda encarava tudo com uma sutil imaturidade e uma tendência autodestrutiva nociva. Comecei a me dar conta que estava começando a não conseguir lidar com as pessoas, e a situação ficou insustentável. Não podia mais prejudicar pessoas por deficiências minhas, por problemas que tinha que resolver comigo.

Afinal de contas, muitos problemas só conseguimos resolver conosco.

E no final, decidi dar um bom tempo para o mundo. Passei a olhei mais para dentro e, a cada dia que eu passava somente com a minha presença, fui notando uma melhora. Paralelo a esses momentos de solitude, comecei a ver que era preciso viver com um pouco mais de simplicidade, e abracei o menos é mais. Me afastei de tudo que considerei prejudicial, inclusive algumas pessoas que ainda não entendi porque ainda mantinha perto de mim. Não me arrependi, inclusive notei a importância de fazer isso com uma certa regularidade. Agora só preciso reorganizar a vida e conciliar os momentos de convivência social intensa com os momentos de convivência comigo.

Enfim, os pontos de vista que aqui nesse texto me proponho a mostrar, creio eu, não servem a todas as pessoas (como disseram para mim uma vez, todo ponto de vista é a vista de um ponto). O maior exemplo disso é que as pessoas introspectivas tiveram vivências completamente diferentes das minhas, logo, podem precisar vivenciar outras coisas, que não a solitude.

Entretanto, percebo que estamos imersos num mundo muito social e interligado, que não permite – de certa forma – a gente ter esse momento conosco. Mesmo quando achamos que estamos sozinhos, não estamos: o celular vibra, notificando mais uma mensagem no WhatsApp. Parando para pensar, agora isso é até um pouco perturbador para mim.

Além disso, o mundo está cada vez mais veloz, o sistema faz com que a gente tenha que trabalhar mais e mais para fazer o capital se multiplicar (as pessoas precisavam ouvir David Harvey, cara). Pode parecer paranoico para alguns de vocês, mas o capitalismo não nos dá mais tempo para estar com a nossa própria companhia. Há quem diga que é proposital, porque esse tempo pode despertar em nós a consciência da melhor forma de lutar contra essa opressão diária.

Prefiro aqui não me arriscar muito. Mas uma coisa é certa.

Precisamos parar para respirar. Sem mais ninguém, de preferência.

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