Crônicas d’um encontro imprevisto

Estaria mentindo se dissesse que não sabia de nada sobre aquela pessoa que fui ver aquele dia. Estaria mentindo se dissesse que não fui, em nenhum momento, alertada. Estaria mentindo se dissesse que não estava um pouco receosa. Mesmo assim, esse receio estava misturado com a euforia de um encontro imprevisto por mim, e que estava prestes a acontecer. Achei que mesmo com tudo isso, eu deveria arriscar, porque afinal podia ser uma experiência satisfatória.

Horas antes do encontro, convencionalidades já se mostraram presentes, e coisas como aceleração dos batimentos, boca seca e um balançar de braços e pernas engraçado tomaram conta de mim. Até que eu cheguei ao lugar onde marcamos. Pouco esperei até ela chegar também.

Bom, logo quando eu a vi, nada senti de muito preocupante. A simpatia e receptividade dela fez com que o receio – que até então me afogava – parecesse ser uma coisa muito boba e desnecessária. Além disso, o seu rosto era hipnotizante e literalmente magnético. O coração se acalmou, e eu me vi como em todo primeiro encontro que costumava ter. Lá estava eu sem armaduras, espadas ou escudos, e guiado por uma pitoresca confiança apressada. O próprio Arcano 22, novamente.

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“Cafe sur la Promenade 2”, de Ira Tsantekidou – 2007

A interação entre nós dois fez-se acontecer, e as conversas foram se desenvolvendo. Eu ainda tinha as informações sobre aquela pessoa comigo, e as mantive como uma criança mantém suas pelúcias preferidas: intocadas e seguras no cantinho mais escondido da minha inconsciência. Eu não queria me deixar levar por conceitos e visões pré-concebidas de alguém que eu estava conhecendo agora, sabe? Além disso, eu não podia permitir que ela soubesse das coisas que eu sabia. Seria o fim do mundo para mim e para outras pessoas.

Assuntos diferentes sobre nossas existências foram sendo tratados, percorridos avidamente por mim e por ela como boas histórias infanto-juvenis. O tempo andava rápido naquele nosso diálogo, que devia ter envolvido – dói-me não lembrar – temas triviais e outros não muito. Andava tão rápido, que parecia correr ao nosso redor, formando uma bolha imobilizante, porém sutil.

Enquanto falávamos de qualquer um desses assuntos, a minha interlocutora me lançou uma pergunta não muito confortante, pois envolvia uma informação que eu estava guardando no âmago do meu ser. Aquelas informações sobre ela. A partir dali, o tempo pareceu parar de nos rodear e personificar-se ao meu lado, me observando pacientemente. Desviei da pergunta, respondi qualquer coisa que fez com que eu não me colocasse em xeque sozinho. O tempo voltou a caminhar como antes (mas não mais tão rápido), e aparentemente tudo voltou ao normal. Até vir a segunda pergunta.

Ela aparentava saber de alguma coisa, ela aparentava ter percebido algo que eu estava escondendo. E eu estava. Me pus a pensar que não estava escondendo tudo tão bem. Outras inquisições se sucederam, e o cenário daquela conversa começou a se tornar aterrorizante. Naquele momento, todas as informações que eu guardava comigo, até as mais ordinárias – como meu sabor de sorvete preferido – pareciam precisar ser trancadas a sete chaves também. Eu comecei a sentir que qualquer coisa minha podia ser usada, por aquela pessoa, contra mim mesma. Todas as histórias que eu sabia sobre ela estavam tomando conta dos meus pensamentos, e provando que aquela pessoa podia mesmo fazer qualquer coisa com o que agora sabia de mim.

A partir daí, eu comecei a me ver à frente de alguém que estava fazendo de tudo para descobrir o que queria, seja com palavras ou apenas com o olhar. No instante em que o tempo parou novamente para me encarar, passei a visualizar de uma pessoa altamente ameaçadora, que simplesmente por coexistir comigo ali já me tornava menor e mais fraca. Uma pessoa que tinha muitos pontos fracos conhecidos, mas que mesmo assim dava medo, porque a sua história não era totalmente conhecida para mim. Já a minha parecia ser completamente conhecida para ela.

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“Verre de vin le soir”, de Ira Tsantekidou – 2007

Pela primeira vez na vida, eu me senti num terreno hostil, e sem nada para me proteger. Senti os arrependimentos de ter me despido de todas as armaduras e armamentos no início daquela conversa, senti a angústia de não conseguir escapar desse ambiente de uma forma inteligente. Eu tentava me desviar de todos os ataques daquela pessoa, e de todo o sentimento de pânico que teimava em ressurgir.

Entretanto, mesmo estando um bom tempo nesse terreno hostil, eu decidi seguir em frente. Não iria fraquejar, e nem me dar por vencida. A partir dali, eu não iria deixar o olhar daquela pessoa vasculhar minha alma, e eu avancei com uma agressiva coragem travestida de ingenuidade. Desviei de outras perguntas, devolvendo todas com uma postura firme e resoluta.

Essa iniciativa curiosamente fez a inimiga virar minha melhor aliada. Pareceu um terrível erro entrar num ambiente tão perigoso, mas antídotos para picadas são tirados dos próprios venenos. Por muito tempo ali, eu fui um pássaro que foi rodeado de forma insistente por uma serpente, que tentava – a todo custo – dar a investida certeira. Só que águias também são pássaros. E elas adoram serpentes.

Com tudo isso, é certo que eu aprendi uma coisa: uma experiência prazerosa e simples pode se tornar desesperadora e aterrorizante. Além disso, aprendi também que existem pessoas que podem te prevenir de todo e qualquer mal, como as que me alertaram nessa situação. Bom, quanto a isso eu apenas digo: abrace os conselhos dessas pessoas como uma criança abraça suas pelúcias preferidas.

— Victor Hugo Arona

 

Nota: Essa crônica foi escrita há mais ou menos um ano atrás, e as observações sobre sua criação não precisam ser explicitadas. Algo necessário a ser dito é que, para a publicação aqui no blog, ela foi adaptada e melhorada.

 

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