Mas afinal, eu sou de esquerda?

As últimas semanas tem sido bastante politizadas para mim. Nesse momento, estou envolvido em atividades de greve – que diga-se de passagem, está em momentos críticos – na minha universidade como delegado de curso, membro de uma gestão e membro de um coletivo. A efervescência de acontecimentos que envolvem, por exemplo, passeatas nazistas também contribuíram para que, em diversos dias, eu me pegasse em contato com algo que envolvesse – em algum grau – um tema de cunho político-ideológico. Eu poderia estar escrevendo especificamente sobre isso de uma forma mais focalizada, específica e detalhada. Poderia estar escrevendo sobre a construção política da UERJ, ou de como está sendo toda experiência em seus múltiplos espaços, mas farei diferente.

Esse meu engajamento político, juntamente com todos esses acontecimentos fizeram eu começar a questionar o que eu realmente acredito e o que eu realmente defendo, porque são nos momentos de crise que a desconstrução e reconstrução podem surgir. Entre os pensamentos que circularam pela minha cabeça, um tema em específico se fez presente algumas vezes. Guiado por todo esse panorama conjuntural que vivo e também por debates que tenho tido com pessoas de fora do meu círculo social, uma pergunta surgiu: qual é a minha ideologia?

Desde que me entendo por gente, oscilei por muitos espaços de pensamento. Já acreditei e deixei de acreditar em muitas coisas, já segui e deixei de seguir muitas outras. Quando percebi que não era ruim ser ambíguo, a partir do momento que eu dosasse bem essa característica e não ferisse ninguém, abracei a ambiguidade* como parte de mim e das minhas decisões. E sempre tive um certo orgulho de poder entender todos os lados de todas as moedas, de poder entender o porquê de cada pessoa pensar de cada maneira. Essa característica curiosa da minha personalidade sempre permitiu que eu pudesse ter qualquer ideologia e que eu sentisse empatia por qualquer um. Por muito tempo, não vi necessidade em manter uma constância de opiniões e considerei que estava tudo bem.

* É importante dizer que a ambiguidade na qual eu me refiro não significa imparcialidade

Só que chega um determinado momento que é preciso ter uma certa constância de opiniões e tomar uma decisão própria. Não dá para viver pelos outros, assim como não dá para abraçar o mundo com a mão. Por mais que eu entenda todas as ideologias, muitas delas se contradizem quando são sobrepostas e se tornam inviáveis em conjunto. A partir daí, se a intenção é agir, e de forma objetiva, a ambiguidade e inconstância não podem mais existir e é preciso escolher um lado da moeda. Isso não quer dizer ser intransigente, ser limitado, ser inflexível ou abandonar a diplomacia, mas sim perceber que a ambiguidade não é prática e que não dá para agradar todo mundo.

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Placas em New York, cada uma com seus escritos de “one way

Sabendo que praticamente todas as decisões passam pelo crivo da ideologia e da visão de mundo, eu precisava me encontrar no meio disso tudo. Paralelamente a esse caos de “mas o nazismo é de esquerda” (risos), eu fui primeiramente procurar tudo que se refere ao eixo esquerda-direita. Eu precisava saber o que eu era e no que eu acreditava antes de defender uma identidade política, não é mesmo?

Para quem não sabe, os conceitos de esquerda e direita surgiram na Revolução Francesa. No parlamento francês, as pessoas que eram contrárias à hierarquias e privilégios, além de outras lógicas presentes fortemente no Antigo Regime sentavam-se à esquerda. Em reação a isso, as pessoas que se posicionavam contra esses pensamentos, defendendo a tradição e considerando inevitáveis algumas lógicas do Antigo Regime (como as próprias ideias de hierarquia) sentavam-se à direita. Obviamente, esses conceitos estão em constante transformação, e em várias sociedades após a França Revolucionária existiram diversas esquerdas e direitas. Mesmo assim, esses conceitos ainda se mantém presentes e fortemente caracterizados (por mais que algumas pessoas tenham a coragem de negar ou relativizar), fazendo com que todas as pessoas ainda hoje possam ser posicionadas nesse eixo tão complexo.

Atualmente, para além dos juízos de valor, podemos considerar que a esquerda é a camada da sociedade que nega a ideia de desigualdade como algo natural, preza pela equidade e bem-estar social e luta para mudar o status quo. Além disso, podemos considerar que a esquerda valoriza as ideias de comunidade e de espaço público. Enquanto isso, a direita é a camada da sociedade que considera que a desigualdade é inevitável, preza pela tradição e hierarquias sociais e deseja manter o status quo. Podemos considerar que a direita valoriza as ideias de indivíduo e de espaço privado.

Incomoda bastante perceber como esses conceitos – propositalmente – são tratados de forma tão equivocada e degenerada no senso comum, como quando as pessoas dizem que “esquerda” se refere à Estado forte e que “direita” se refere à Estado mínimo. É assustador notar como que se posicionar à esquerda (assim como se posicionar à direita) se tornou um motivo para levar pedrada, porque isso prova que está cada vez mais visível a onda de polarização política que impossibilita o debate e só fortalece as bolhas sociais. Também é bastante incômodo perceber como muitas pessoas defendem uma bandeira com unhas e dentes, mas sequer entendem o que estão defendendo, provando que são politicamente fanáticas e ideologicamente acríticas. E isso gera um desconforto enorme em mim.

Desde já, declaro que existe um mundo dentro da esquerda e um mundo dentro da direita que não pretendo aqui explicitar, e que para o eixo esquerda-direita abarcar todas as ideologias políticas precisaria estar atrelado a – pelo menos – outros eixos (como o de liberdade-autoridade). Mesmo assim, a partir das definições de esquerda e direita que trouxe, posso me considerar desde muito tempo como alguém de esquerda, e por vários motivos.

Eu não consigo estabelecer como prioridade do governo o crescimento do PIB em detrimento de boas condições para a sociedade. Eu não consigo acreditar que um governo que prioriza empresas favorece o povo, afinal o lucro gerado sempre será direcionado aos donos de empresas. Sabemos que o dinheiro muda a cabeça de muitas pessoas, então porque acreditaríamos que um grande empresário vai preferir dar boas condições aos seus trabalhadores do que lucrar mais? A prioridade dada pelo setor da direita ao mercado e à economia me incomodam bastante, e por essas e outras eu me considero uma pessoa de orientação política à esquerda. Para mim, o papel do governo é dar qualidade de vida às pessoas, fornecendo os serviços essenciais à população, como saúde, educação, moradia e transporte. Esses serviços devem ser públicos, gratuitos e universais.

Eu discordo completamente da lógica do livre comércio, defendida por um grupo da direita, por muitos motivos: sabemos que o sistema capitalista teve ao longo da sua história diversas crises. Muitas delas se deram justamente pelo próprio liberalismo (a última grande crise, em 2008, se deu justamente pela livre circulação de capital financeiro e especulação imobiliária) e geraram consequências sociais pesadas, como as que podemos sentir na pele atualmente (não, isso tudo não foi gerado pela corrupção do PT). Além disso, o discurso de competição entre empresas no livre comércio que gera preços baixos à todas as pessoas é utópico, pois as maiores empresas ditam as regras do jogo e os monopólios são inevitáveis.

Além disso, muitas vezes que liberais falam de uma gestão de livre comércio, falam em privatizar empresas, falam em enxugar a máquina pública e cortar serviços públicos, alegando que isso “gasta muito” e que isso “gera problemas”. Em primeiro lugar, no caso do Brasil isso é falacioso, porque aqui tais serviços não geram gastos exorbitantes como dizem. Em segundo lugar, privatização gera, entre outras coisas, a seguinte configuração: utiliza o serviço quem pode pagar.  Numa sociedade que já é extremamente desigual, dar essa configuração a todos os serviços sociais, como saúde e educação, é querer que apenas uma camada tenha acesso.

Eu não sou o maior conhecedor de economia, e nem quero ser. Não quero nesse texto apontar a solução para os problemas sociais e a melhor forma de intervenção estatal, simplesmente porque sou um geógrafo, e não um economista (e também não quero dar um teor economicista para esse texto). Mas uma coisa é certa: um modelo de política à esquerda é possível.

Agora, se existem ou não erros em setores da esquerda, é outra coisa completamente dissociada. Mesmo me identificando como alguém dessa orientação política, não ignoro o fato de que existem pessoas que pensam de forma diferente da minha, e até cometem erros graves. Ao contrário de alguns da direita (assim como alguns da esquerda), eu me coloco sempre numa posição (auto)crítica e não iludo ninguém com posturas moralistas mentirosas de “aqui nada disso acontece, essa imundície está no outro lado”.

Enfim, eu ainda estou em processo de subsidência ideológica, no qual eu ainda vou me encontrar dentro da esquerda que, como eu disse, é um mundo. Sinto que ainda preciso fortalecer bases teóricas, ler bastante e – claro – colocar em prática o que aprendo. Acho que estou numa situação favorável desde o momento que me propus a escolher um lado da moeda, e já entrei em contato com muitas coisas e com muitas pessoas que podem me ajudar nessa caminhada. Agora só falta arrumar a mochila e partir.

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