Sou apenas um rapaz latino-americano

Tem pipocado já há um tempo algumas notícias sobre a Venezuela e o caos social, econômico e – por conseguinte – político no país. Várias notícias alarmantes sobre a falta de papel higiênico (que desde os meus áureos dezessete anos costumavam falar) e outros itens de necessidades básicas nas prateleiras dos mercados de Caracas, artigos sobre a polêmica atitude de Nicolás Maduro e sobre a repressão com a qual ele estava agindo nas manifestações contrárias ao seu governo. Pulgas atrás da minha orelha ainda não tinham surgido, mas eu já começava a me perguntar: o que está acontecendo no nosso vizinho bolivariano?

Depois de uma conversa no em que eu percebi que não sabia opinar sobre o assunto, pensei que era o momento de eu começar a procurar informações. Quando comecei a encontrar algumas coisas, os questionamentos começaram a surgir, minha pesquisa foi se aprofundando e eu percebi que esse era um bom tema para tratar aqui. Por que não falar da atual situação venezuelana, o assunto do momento?

Antes de tudo, queria dizer que depois que li e ouvi diversas coisas acerca do tema, um descontentamento surgiu lá no fundo do peito, porque vejo que muitas coisas estão sendo faladas sem a menor reflexão, inclusive por pessoas que eu gosto muito. Está rolando uma disseminação de senso comum absurda, com uma reprodução daquele discurso midiático fácil e – o que me incomoda muito – palatável para muitos. O mesmo discurso midiático que põe as medidas de Temer como “necessárias”, o mesmo discurso midiático que construiu uma imagem bizarra do Partido dos Trabalhadores.

É crucial que, para diversos assuntos e praticamente para qualquer assunto que envolva algum recorte espacial (a galera da Geografia deve saber bem o que eu estou falando), enxerguemos todo o desenrolar histórico dos acontecimentos. O que quero dizer é que não podemos enxergar nenhum ponto no mundo dissociado de seu passado, muito menos de sua localização e entorno, como se ele fosse uma bolha estática e isolada no espaço-tempo. Ainda mais quando estamos falando de América Latina, onde encontramos o assunto do nosso post e até (pasmem!) nós mesmos.

Logo, precisamos levar em consideração aqui (e em outros assuntos também) a evolução diferencial dos espaços, que nosso amigo Milton Santos tratou tão bem em suas obras. Precisamos também perceber a criação e transformação dos diversos agentes que atuam nesse espaço, os fatores históricos, locacionais e regionais, além das redes e interrelações – dos mais diversos tipos – que esse espaço constrói, mantém, dissolve e reconstrói ao longo do tempo (dentro de si ou não). Parece complicado, mas é importantíssimo perceber esses elementos, para que a nossa visão não se torne opaca e fechada demais. E quando isso acontece, começamos a pensar que esses discursos da televisão são a mais coesa análise da realidade. Quando na verdade, estão longe de ser.

Todos os Estados que compõem hoje o continente americano foram colônias de algum país europeu, com exceção da Guiana Francesa… que até hoje é uma colônia. Isso quer dizer que todos nós passamos por processos de exploração e subjugação de uma lógica social exterior à nossa por significativo tempo. Porém, a partir do século XVIII (1776), essa situação começa a mudar, e os processos de independência começam a fervilhar o Novo Mundo. Estados Unidos é o primeiro país a tornar-se independente, e acredito que, de imediato, suas reais intenções em relação à sua política internacional não foram tão explícitas. 49 anos se passaram, e um discurso presidencial cunhou a famosa Doutrina Monroe (quem lembra da frase “América para os americanos”?).

A partir daí, os estadunidenses se colocaram sempre numa posição de supremacia sobre os outros países. Essa imposição de soberania aconteceu com praticamente todos os países, mas é claro que a América sofreria de forma mais contundente essa influência neocolonialista. É curioso – e levemente assustador – como, ao longo dos anos, esse abuso se deu de diversas maneiras: políticas mais explícitas como o Corolário Roosevelt no início do século XX, e a Operação Condor; mas também táticas mais sutis como a Política de Boa Vizinhança em meados do século XX, e o american way of life durante a Guerra Fria. Os ianques impõem seu poder até quando dizem sua nacionalidade, a partir do momento que dizem que são americanos (eu abomino essa forma de dizer a nacionalidade dos estadunidenses), praticamente declarando que o continente é deles.

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Charge relacionada à política estadunidense no Caribe, com referências ao Big Stick – William Allen Rogers (1904)

Nesse contexto de subjugação velada (ou nem tanto), os países da América Latina – que já possuem um histórico de desigualdade decorrente das suas lógicas de escravidão e exploração – foram obrigados a ter uma ligação (muitas vezes assimétrica) com o seu vizinho do norte. Ao longo dos anos, com governos latino-americanos que se posicionavam a favor dessa lógica, essa estratégia se manteve. É importante dizer que quando algum governo se posicionava contra essa lógica, e caminhava para algo que era prejudicial aos Estados Unidos, alguma coisa acontecia. Coisas que poderiam envolver golpes militares, por exemplo (Paraguai, Guatemala, Argentina, Brasil, Bolívia, República Dominicana, Peru, Chile e Uruguai sabem bem disso).

“Victor, mas e a Venezuela?”, você pode estar me perguntando. Bom, a Venezuela passou boa parte do século XX com governos eleitos de forma indireta e alguns golpes de Estado, mas principalmente construiu toda a sua história com lideranças brancas e da elite (os presidentes mais pareciam europeus, numa sociedade majoritariamente indígena). É importante frisar o caráter elitista e branco dos governos para provar que, assim como nós, o povo venezuelano nunca pôde participar da política. Em 1958, a segunda ditadura (!) se encerra e acontecem eleições diretas, com a entrada de Rómulo Betancourt. Era o governo de mais um cara branco, porém importante para a história. Foi em seu governo que a Venezuela entraria como membro fundador da OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

Para quem não sabe, a Venezuela possui em sua geomorfologia uma bacia sedimentar, a bacia do Orinoco, na qual está presente um dos maiores reservatórios de petróleo bruto do mundo. Essa formação de hidrocarbonetos significativa fez com que um país da América Latina se reunisse e se posicionasse – no mesmo nível – com os grandes países arábicos. Um país que produz quantidades massivas de petróleo praticamente do lado dos Estados Unidos. Isso já é algo a se pensar.

Entre 1958 e 1998, houve uma surreal alternância bipartidária entre os governos venezuelanos, conhecido como o Pacto de Puntofijo. Essa aliança, disfarçada de uma política democrática (vale lembrar que desse pacto, o Partido Comunista foi riscado), fortaleceu o caráter elitista da política nacional. Em 1989, depois da imposição de um pacote de medidas neoliberais do presidente Carlos Andrés Perez, houve uma manifestação popular generalizada de grandes proporções. O episódio conhecido como Caracazo, que ocasionou dezenas de mortos, mostrou as feridas de uma sociedade historicamente desigual, e uma figura que se tornaria histórica já se mostrava presente: Hugo Chávez.

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Repressão do Estado no Caracazo (1989)

Desde 1982, através do chamado MBR-200, o militar Hugo Chávez mostrou seu descontentamento com as políticas antipopulares dos governos e com a influência opressora dos Estados Unidos. Inspirado em Simón Bolívar, sua ideologia se desenvolveu no que ele denominou bolivarianismo, que apesar de controverso (Bolívar era uma figura bastante problemática) ganhou peso ao longo dos anos. Em 1992, e em consequências do próprio Caracaço, ele tenta executar um golpe de Estado que acaba falhando. Assumindo a culpa pelo golpe e pelas mortes, Chávez é preso e ganha notoriedade pela população venezuelana, que passa a considerá-lo uma figura importante.

Anos depois, Hugo Chávez reaparece, e nas eleições de 1998 torna-se o novo presidente da Venezuela. Nascido em uma cidade do interior da Venezuela e descendente de indígenas, Chávez era completamente diferente dos presidentes anteriores, e sua vitória foi para além da pura representação ideológica, sendo também racial. Para além disso, as ações dos seus mandatos mostraram para o povo que eles poderiam compor a política, a partir do momento que todas as coisas passavam pelo crivo da população, criando um modelo novo de política (constituído de quatro poderes).

Voltemos à escala internacional. Pensemos num governo eleito que governa para o povo e que possui ideais contrários aos do Estados Unidos. Pensemos que é o governo de um país que produz altas quantidades de petróleo e ainda é membro da OPEP. Além disso, Hugo Chávez ampliou relações com Cuba, o vizinho de governo socialista, e nacionalizou a maior parte do petróleo. Obviamente isso é ameaçador aos estadunidenses, e eles não vão deixar isso passar. Essa resposta ao governo de Chávez se deu de diversas formas, principalmente quando diversos discursos falaciosos foram construídos para derrubar o presidente.

Voltemos à escala nacional e regional. É claro que as elites do país também surgem como opositoras do governo (os empresários estadunidenses não são os únicos que querem derrubar o governo chavista), afinal elas governavam antes sem nenhuma dificuldade. E as elites venezuelanas também agem, das suas maneiras. Três anos depois do início da presidência de Hugo Chávez, por exemplo, aconteceu o golpe petrolero de 2002, onde houve uma tentativa de parar a produção petrolífera por parte da oposição. Se essas atitudes são feitas em conjunto com forças externas, eu sinceramente não sei (e também não quero ficar criando teorias da conspiração nesse post, não mesmo).

A produção de petróleo no governo de Hugo Chávez se torna importantíssima, principalmente devido aos benefícios que trazia. Com a extração petrolífera, Chávez focalizou altos investimentos nas áreas da saúde e da educação, e também retribuiu boa parte dos ganhos – de forma direta – à população. Quando a situação ia mal, no que se referia à produtos básicos, Chávez comprava esses produtos com o dinheiro que ele gerava com essa produção significativa de petróleo.

Porém, alguns anos depois surgem as primeiras crises. Em 2008, a grande crise do capital financeiro gerou consequências no mundo todo. As crises do petróleo também fizeram o preço do barril cair pela metade, e num país que a dependência do petróleo passava dos 90%, isso iria reverberar fortemente. Em 2013, Hugo Chávez morre devido a um câncer, dando lugar ao seu vice, o agora famoso Nicolás Maduro.

O quadro no país se tornou generalizado. As elites estavam há muito tempo insatisfeitas, o povo havia perdido o presidente que tanto apoiavam, e agora teriam que lidar com uma crise econômica e um liderante nada carismático. O aumento da inflação e a escassez de alimentos devido às crises anteriormente citadas aumentaram a insatisfação da população e geraram altos índices de violência. A oposição ganhou voz no meio disso tudo e se constituiu como maioria no poder Legislativo, diminuindo de forma intensa a governabilidade do presidente. E a oposição ainda tem os Estados Unidos ao seu lado. Maduro se encontra hoje contra muitas coisas ao mesmo tempo, e sua atitude é de pura resistência, principalmente aos golpes parlamentares que aqui no Brasil derrubaram Dilma (inclusive as semelhanças com o Brasil são absurdas).

O embate político está sendo intenso, e o conflito se expande a outras esferas, como a econômica. É certo que existe escassez de itens nos mercados, mas ainda existem medidas de reposição por parte do presidente. Porém, o que anda acontecendo é um tipo de boicote por parte de algumas empresas, que deixam de produzir ou deixam de vender algum tipo de artigo, gerando uma verdadeira guerra produtiva. Esse processo mostra-se explícito quando, num mercado, não há leite e há queijo. Algumas empresas também estão impedindo os seus funcionários de trabalhar, fechando suas portas e dizendo que estão “entrando em greve”, apropriando-se de uma ferramenta que é popular.

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Charge representando Maduro e seus principais adversários – Latuff (2013)

Os opositores também apropriam-se do discurso da insatisfação popular para depor um presidente que foi eleito de forma legítima, pondo em risco todo um sistema que é, de certa forma, democrático. Um grupo dissemina esse discurso, de forma intencional, e uma camada da população acaba comprando a ideia, indo às ruas para pedir a saída de Maduro. Qualquer semelhança com o Brasil nos últimos anos não é mera coincidência.

Portanto, o que acontece agora na Venezuela é esse embate político, que se mostra cada dia mais forte. E a gente que está de fora, só observa… Mas o pior de estar de fora é que não podemos nunca saber o que está acontecendo de fato, porque o que temos são versões de outras pessoas. Resta saber em quem acreditar, em quem confiar.

O que realmente acho disso tudo é que o governo chavista teve seus erros, assim como o de Maduro. Porém, precisamos ser mais sérios nas nossas abordagens, e tomar consciência do que realmente soluciona o problema. Com certeza, uma das soluções não envolve o incentivo a um golpe de Estado, e muito menos comprando um discurso sem embasamentos. Para os amigos a quem possuo afinidade política, defender a deposição do atual presidente da Venezuela – para mim – é defender a deposição da Dilma aqui (e nós sabemos que foi golpe).

Criticar as políticas econômicas, principalmente as que envolvem o aumento da dependência do petróleo nacional e as falhas tentativas de controle da inflação, é super válida. Questionar se as políticas chavistas foram populistas ou populares também é válido. Todavia, esses questionamentos e críticas precisam ser feitos de forma coerente, construtiva e embasada.

Bom, o que realmente quero fazer aqui é mostrar uma versão mais profunda das coisas, principalmente com o elemento histórico que eu considero tão importante numa análise dessas, e para além do discurso – intencionalmente vazio e superficial. Mas mesmo assim, digo: sinta-se livre para questionar.

Sempre sinta-se livre para questionar. Tudo.

Origem da minha reflexão:

Uma videoaula sobre o assunto (Sim, uma videoaula!)

Alguns vídeos de alguns canais interessantes, como esse e esse

Artigos que eu discordo um pouco, como esse e esse

 

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